
Luiz Antônio Costa
Há quem sustente, com certa dose de lamentação, que o avanço dos anos empobrece a memória. Peço licença para discordar. Aos 71 anos de jornada, percebo que minhas lembranças e os devaneios da imaginação me visitam com uma naturalidade tão vívida que chega a assustar. O tempo não apaga o ontem; ele apenas refina a nossa capacidade de enxergar o invisível.
Para ilustrar essa tese, resgato do baú da mente dois fragmentos de memória. À primeira vista, parecem fios soltos, sem qualquer conexão entre si, mas convergem exatamente para o mesmo leito.
O primeiro cenário nos leva de volta a uma infância descalça e livre, vivida intensamente nas imediações do Córrego das Tabocas (afluente do Córrego Feio). Foi ali, naquele chão de terra e águas limpas, que o destino me colocou diante de uma espécie de cartilha mágica. Lembro-me perfeitamente do dia em que alguém depositou em minhas mãos de menino a primeira narrativa que me arrebataria: “Era uma vez… Três Porquinhos”.
Para um observador comum, poderia ser apenas um livreto infantil. Para mim, foi uma experiência avassaladora. Aquelas páginas provocaram o efeito de um entorpecente literário — consumi a primeira linha e, imediatamente, precisei da segunda dose, da próxima página, do capítulo seguinte. Devorei a história até o ápice, aquele momento clássico em que o lobo despenca chaminé adentro, cai no caldeirão borbulhante e foge em disparada.
As ilustrações daquele livro, de um colorido vibrante e exuberante, acenderam uma faísca definitiva no meu imaginário. Aquela febre de leitura dividia espaço na minha memória com a imagem de um colega de escola, que orgulhosamente exibia suas revistas no pátio, atiçando a curiosidade de todos nós.
Ao redor daquela e de tantas outras histórias, orbitavam os mundos de Monteiro Lobato, o mistério folclórico do Saci e os personagens de pés descalços — figuras típicas da nossa própria região que cruzavam os nossos caminhos e alimentavam a nossa capacidade de fantasiar.
Hoje, cruzando a maturidade da vida adulta, compreendo o tamanho da dádiva que recebi naquelas tardes de sol. A imaginação não é um passatempo infantil; é, em si, uma das maiores riquezas da condição humana.
Com o amadurecimento, o acúmulo de aniversários e as recordações da infância deixam de ser mera nostalgia e passam a ser as nossas referências mais profundas. O tempo pode levar o vigor dos passos, mas é incapaz de confiscar a habilidade de criar, sonhar e reverenciar aquilo que um dia nos deu asas. No fim das contas, talvez a maior graça de envelhecer no caminho seja justamente esta: manter intacto o olhar de menino e nunca, jamais, perder a capacidade de imaginar.





