
Luiz Antônio Costa
Chega a uma certa altura da vida que o retrovisor começa a disputar a atenção com o para-brisa, e um pensamento se torna simplesmente inevitável. Você pode estar ali, calmamente escolhendo um tomate na feira ou esperando a água do café ferver, quando ela surge na mente: a tal da “Indesejada da gente”. A pergunta que ecoa no silêncio do escritório é direta: quero morrer? A resposta, com a rapidez de um reflexo, é um sonoro e absoluto não. A vida é uma só, uma oportunidade única e extraordinária, e a minha firme intenção é aproveitá-lo até o último fio de caldo, saboreando cada minuto sem gastar fosfato pensando no fim da linha.
Contudo, como sei que ela tem a pontualidade britânica dos eventos inevitáveis, também não nutro por ela nenhum temor sagrado. Sou um sujeito profundamente tranquilo e bem resolvido quanto a esse itinerário final. Até porque, sejamos francos e pragmaticamente mineiros: não adianta absolutamente nada espernear. O universo não aceita reclamações no SAC sobre a nossa finitude. O negócio é ir analisando os dias com calma, tocando o barco com leveza e deixando a dona morte chegar exatamente no tempo dela, sem pressa nenhuma de puxar conversa no portão.
Nessa filosofia de estrada, eu quero exatamente o que a maioria esmagadora dos mortais deseja secretamente: quando ela finalmente decidir aparecer, que chegue de uma vez, sem aviso prévio, sem véspera e sem burocracia. O meu verdadeiro e maior medo não é o ponto final, mas sim o processo que pode antecedê-lo. Tenho pavor de sofrer qualquer mal que me roube a autonomia. A ideia de virar um passageiro imóvel da minha própria existência, dependendo de outras pessoas para as tarefas mais corriqueiras e, por tabela, confiscando a autonomia delas também — porque é exatamente isso o que acaba acontecendo —, essa sim me assusta. Ninguém quer se tornar um peso na bagagem de quem ama.
Por isso, o meu plano tático para o grande dia é a distração. Quando a danada vier cobrar a passagem, que me pegue completamente desprovido de solenidade. Que me encontre distraído, entre os afazeres que dão sentido aos meus dias. Que me pegue na ilha de edição, cortando e alinhando as imagens de um novo vídeo documentário, pois, como jornalista que sou, meu vício sempre foi contar histórias — e de preferência verídicas, mas a ficção também me atrai. Que me encontre planejando a próxima viagem ou no meio da vibração de um jogo do CAP ou do Cruzeiro, que são os meus grandes prazeres de arquibancada.
Afinal, sempre foi assim. Seja apresentando um programa de rádio, soltando a voz na narração de um gol no futebol, fazendo reportagem para a televisão, ou então pesquisando e escrevendo uma matéria especial para revista ou jornal. Estar ali, concentrado, digitando uma crônica, conto, livro-reportagem ou uma novela policial, nunca foi um fardo. Sempre foi muito mais que profissão; foi, e continua sendo, puro prazer. Por isso costumo dizer, com um sorriso de canto de boca, que sou um felizardo: faço exatamente o que gosto e ainda sou pago por isso.
Então, que o fim me pegue assim, bem ocupado com a vida. No susto, num estalar de dedos bem humorado. Assim, sem dar tempo para despedidas dramáticas ou discursos ensaiados, eu simplesmente mudo de assunto. E de plano. Só espero que não seja por agora!





