O SOM DA MEMÓRIA. Patrocínio perde sua livraria: boa parte de sua fonte de cultura se esvai

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Sábado, 19 de novembro de 2016: um dos grupos de teatro da cidade, o "Artvistas", se apresentou durante o dia, na livraria Livros & Cia e fez sucesso. Fotos: Arquivo Rede Hoje|Mônica Nunes

 

Patrocínio fecha o ano com muitas perdas e ganhos. Sem dúvida nenhuma, entre as maiores perdas está a de sua única livraria. E não é porque era uma loja especializada em livros, o que já seria triste: a Livros & Cia, além de livros, foi pensada como espaço cultural, de eventos ligados a cultura – até peça teatral tivemos ali. Por isso levava “& Cia” no nome.

 

adelia-livroAdélia Bernardes, sempre visitando livrarias que tinham o perfil que queria implantar na sua. Foto: Acervo Pessoal

 

Foi pensada(inicialmente pela sua criadora Matilde Amaral) para ser mais que uma loja de livros. E continuou assim, quando foi repassada para a Adélia Bernardes. Ela também queria transformar a livraria num local de convivência e discussão, um espaço democrático destinado a um café, onde as pessoas iriam comprar livros e revistas, ler, tomar café e conversar. Era a vontade de Adélia. Mas, mesmo não sendo o objetivo final o dinheiro, a livraria precisa disso para sobreviver e a proprietária, evidentemente, se cansou e a livraria sucumbiu.

 

A livraria se foi, mas seu objetivo continua. Adélia resolveu doar o acervo que ainda resta – e que é grande – e os móveis da livraria para a Biblioteca Municipal.

 

Mônica Nunes, escreveu no seu Facebook nesta sexta-feira((13):

Obrigada Adélia Isaac Bernardes.

O que dizer quando você encontra a única livraria de Patrocínio fechada?

Encerrou suas atividades.

Infelizmente.

Em sua cabeça passa as lembranças desde o tempo da ex proprietária Matilde Guimarães.

O trabalho de Adélia associando o teatro, a música.

As crianças atentas a cada apresentação.

Tentativas.

O público frequentador cada dia mais….escasso.

Mas infelizmente ler hoje em dia é raro.

A internet forte concorrente.

O livro de preço único.

Não é só aqui.

Eu agradeço a você Adélia sua insistência em manter a livraria mesmo com tantos poréns.

Seu desprendimento em doar livros e moveis para a Biblioteca Municipal.

Eu te agradeço por sorrir quando a vontade era chorar.

Missão cumprida.

Quem perdeu?

Patrocínio.

Monica Othero Nunes

 

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A primeira Livros e Cia da cidade na galeria do Edifício Joaquim Constantino 

 

Mas essa situação não é apenas de Patrocínio. No Rio(centro da cultura nacional), São Paulo, Belo Horizonte e outras grandes cidades, o fechamento de livrarias está acontecendo com uma frequência espantosa nos últimos anos.

 

O jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte, em 2016 trazia uma reportagem em tom de lamento: “Em função dos tablets, do kindle e do on-line, as livrarias tradicionais acabam perdendo espaço. A internet atrapalha bastante nesse sentido. Esse não é o primeiro sinal do declínio do segmento. No ano passado, outras duas livrarias tradicionais e aclamadas em Belo Horizonte se viram obrigadas a fecharem as portas - Mineiriana e Status, por causa de preços abusivos de aluguel na região da Savassi. ‘Hoje em dia, livrarias de shopping acabam se sustentando porque não vendem apenas livros. Se você entra nessas lojas, encontra uma TV de quase R$ 30 mil. É isso que mantém o empreendimento em pé. Um livro de R$ 19,90 jamais sustenta uma livraria atualmente’, explica Van Damme Jr, o dono de uma das mais tradicionais livrarias da capital. ‘O momento não é confortável, mas estamos recebendo muitas pessoas que foram fiéis a nós durante anos e que estão com um grande sentimento de perda’, revela o empresário”.

 

É mesmo que está ocorrendo agora em Patrocínio.

 

Concordo em gênero, número e grau, com Mônica. Nesses tempos de internet, onde tudo se acha e tudo se compra, fica muito difícil manter uma livraria com a qualidade da Livros e Cia numa cidade grande, imagine numa cidade média como Patrocínio. O seu lamento é o lamento de todos que gostam da literatura, da arte e da informação. Corroboro seu agradecimento a Adélia, seu marido Carlos e seus filhos. Você tentaram, mas o inevitável aconteceu. 


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