SOM DA MEMÓRIA. Como uma empresa competente perdeu seu patrimônio por causa de um plano econômico

Imagens: reprodução revista Presença

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Reportagem sobre a Saiasi, publicada em outubro de 1983, no revista Presença

 

Para escrever minha crônica "O Som da Memória", recorro sempre ao arquivo das revistas e jornais que editei. Geralmente consulto mais a revista Presença porque é mais antiga – de outubro 1983 até final de 1997. Eu mesmo me surpreendo com o que é notícia hoje, vira história amanhã. Encontrei numa das edições de 1984, este anúncio da Escola Atenas, que fala das alunas da primeira turma que se destacaram ao passar em vestibulares de Medicina(Júlia Amélia de Queiroz) e Psicologia(Maria de Lourdes Ribeiro) em universidades federais.

 

Na mesma época(1984), registramos o desenvolvimento de uma grande indústria calçadista, a Saiasi – dos irmãos Dirceu e Aparecida Caldeira e do marido de Aparecida, Isaias Costa(daí o nome Saiasi, que é Isaias ao contrário).

 

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Anúncio da Escola Atenas em 1984, na revista Presença.

 

Além do café, seda pura e outros produtos, Patrocínio exportava também calçados. E uma das fábricas responsáveis pela exportação era a Saiasi. Foram 9 mil pares de calçados exportados só em outubro de 1983 e mais de 30 mil pares seriam embarcados até o final do ano. Dirceu Caldeira, Aparecida Caldeira Costa e Zacarias Caldeira Costa dirigiam a fábrica. Da mesma forma exportando e valorizando mercado interno, a fábrica crescia.

 

A Saiasi – nome dado por Leonardo Caldeira - foi fundada por Isaías Felipe Costa e seu irmão Zacarias Costa em janeiro de 1972, produzido na época, 200 pares por dia. Uma fábrica pequena, mas produzindo calçados masculinos de qualidade. Aos poucos, o barco tomou um novo rumo. Mas, como na vida nem tudo são flores, quando a fábrica estava começando a atingir o ponto ideal, seu criador e fundador, Isaías Felipe Costa, faleceu, vítima de um acidente automobilístico na BR-262 quando retornava de Belo Horizonte, onde foi a negócios da própria indústria no dia 12 de abril de 1981. A partir daí, sua esposa Aparecida Caldeira Costa, ainda sem experiência, teve que assumir o comando da empresa como presidente e deu continuidade, com grande sucesso, diga-se. O diretor comercial era Zacarias Costa e Dirceu Caldeira, o diretor administrativo. Os três, tocaram a fábrica muito bem.

 

A Saiasi tinha 200 empregados diretos, proporcionando outros empregos indiretos. No mercado interno atendia os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Goias, Distrito Federal e Bahia e no externo, EUA. Na época produzia para o mercado interno e estava fabricando seis 6 mil pares por mês, destinados aos Estados Unidos, com essa produção garantida em contratos firmados até março de 1984. Em janeiro daquele ano, a Saiasi foi a primeira a empresa de Patrocínio a adquirir terreno Distrito Industrial e construir. Dirceu Cadeira informava que a área construída era de 1000 metros quadrados.

 

IMG 20171215 240224052Aparecida Caldeira recebia o título de "Empresária do Ano", em apenas três anos após a morte do marido

 

Em março de 1984 – só três anos após assumir a empresa - Aparecida Caldeira foi escolhida, por unanimidade, pelos diretores da Associação Comercial de Patrocínio, a “Empresária do Ano”. Ela foi a Belo Horizonte, sede da Fiemg, receber o diploma das mãos do governador Tancredo Neves.

 

Mas, o brasileiro para sobreviver fica exposto não só às dificuldades do mercado – que já são muitas -, também às criadas pelo governo com seus planos mirabolantes. O Brasil criou um plano para exportação de couro que provocou a escassez da matéria-prima no mercado interno e fez o preço explodir, pegando as indústrias de surpresa. Isso matou muitas pequenas e médias industrias que não tinham como sobreviver. Além de mercado, perdeu-se postos de trabalho – em Patrocínio, nada menos de cinco fábricas pararam, entre elas as maiores, Saisi e Pitter.

 

Infelizmente, muitas indústrias calçadistas da época em Patrocínio (várias no Brasil), fecharam as portas e postos de trabalhos de centenas de pessoas por causa de planos econômicos do governo, que colocavam os empresários do Brasil em desvantagem com os de outros países, especialmente dos Estados Unidos. 

 

Mas, ficaram marcadas para a posteridade, o desempenho, capacidade profissional e de produção desta família, dos patrocinenses e dos brasileiros.



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