COLUNA DO IVAN. O Livro de Alberto Araújo

INTERVALO-VAGALUME-LIVROFiquei feliz de ver o livro Intervalo do Vaga-lume publicado. Foi editado em maio do ano passado e lançado em Patrocínio no final do ano. Há muito, eu insistia com Alberto para publicá-lo. É um livro interessante e merece inclusive uma divulgação maior.

 

O livro tem como cenário principal a cidade de Goiânia. Um rapaz natural de Goiânia, depois de perder os pais em um acidente e ser criado pelos tios, muda-se para a Espanha. Obcecado pelo seu passado, volta de Salamanca e resolve viver alguns dias na mesma casa em que passou a infância. Para isto, sequestra o casal, proprietários da casa, Olavo um professor de Antropologia, e Imaculada, uma pianista. O casal tinha uma viagem marcada para a Europa e no dia de partirem, o jovem ocupa a casa para ali ficar durante o período da viagem, mas impede o casal de viajar e passa a conviver com eles. Era importante e necessário que os vizinhos tivessem a impressão de que o casal realmente havia viajado e por isto não podiam perceber a presença deles na casa.

 

Diante do horror e pânico do sequestro, os primeiros dias são tensos, mas a situação vai se tornando familiar, vão se apegando ao sequestrador e este a eles a ponto de assistirem juntos a uma partida de futebol no estádio Serra Dourada e o casal viajar em companhia do sequestrador para visitarem o sítio arqueológico de Serranópolis, estudado por Olavo.

 

O livro narra, dia a dia, a vida dentro da casa. A marcação cronológica poderia tornar o livro monótono, mas isto não acontece, pois o autor habilmente explora a tensão do sequestro e mostra os conflitos de Gabriel, o sequestrador, em relação a sua infância. Aspectos psicanalíticos e psicológicos vão emergindo na vida de Gabriel como o trauma do acidente que vitimou seus pais. O fato de ter ido estudar em Salamanca acentua ainda mais sua vida voltada para sua infância e, de certa forma, busca na pessoa de Olavo e de Imaculada a figura bondosa de um pai e de uma mãe. Por outro lado, o casal vai se afeiçoando ao sequestrador projetando nele a imagem de um filho que não tiveram. Voltar à casa paterna é uma forma de apaziguar seu espirito e conviver com Olavo é ter novamente a presença paterna a quem era muito afeiçoado. Imaculada medeia o relacionamento entre Olavo e Gabriel evitando, no início, atritos explosivos diante da sarcástica ironia de Olavo com o sequestrador. Gabriel descobre na casinha de despejo, guardados e empoeirados, os velhos discos do pai e passa a ouvi-los mergulhando em seu passado. Imaculada tenta fazer Gabriel entender que sua obsessão pelo passado é inútil e precisa se libertar dela. Pede a Imaculada que toque a mesma música que a viu tocar quando adentrou à casa, a primeira vez, com o pretexto de estudar piano, projetando na pianista a figura doce da mãe. Imaculada volta a tocar no aniversário de seu marido. Esta relação psicanalítica que vai se acentuando no livro, dá sempre um toque de novidade à narrativa, instigando e sempre despertando o interesse do leitor.

 

Existem muitos momentos de tensão que contribuem para acentuar o drama da narrativa como a ida ao estádio com o casal sequestrado e a blitz na rodovia de acesso a Serranópolis. Além disto, os vizinhos vão desconfiando de algo anormal na casa, como a música de piano, até descobrirem que o casal não havia viajado para a Europa como estava previsto.

 

A narrativa se enriquece com os aspectos culturais que Alberto soube colocar tão bem em sua obra. A poesia de Fernando Pessoa, paira sobre a obra devido à paixão do pai de Gabriel pelo poeta português. Aliás, o autor do livro é também um apaixonado pelo poeta. O ambiente cultural de Salamanca, os lugares frequentados pelo poeta português em Lisboa e visitados por Gabriel enriquecem a obra. As personagens são intelectuais, o sítio arqueológico de Serranópolis tem uma importância enorme para a arqueologia brasileira. A poesia de Gabriel, também um poeta, permeia toda a obra, com poemas belíssimos.

 

O refinamento da obra se manifesta na linguagem que vai tecendo a narrativa. Imagens poéticas como “levantou com o desejo de espantar o pássaro da tristeza que teima em pousar em seus ombros”, “aos poucos as cores do Brasil limpam a vista deste goiano que dobrou as esquinas do mundo”, “as perguntas se atropelam”, ou ainda “depois de tanto tempo reencontrou a vida trancada em um cofre abandonado” encantam a narrativa densa, bem elaborada, feita com esmero e a experiência de um poeta.

 

Alberto publicou, além deste romance, livros de poesia em sua juventude e, agora, em sua fase adulta. Entre eles “Alma Transgênica” e “Alma Lusitana” de poemas encantadores. Ao poeta, se soma, agora, o romancista. Seus leitores e amigos podem se orgulhar da convivência com um autor que apela para o sublime ao penetrar nos recônditos da alma humana tanto na poesia quanto no romance. Aí se encontram a importância e beleza de sua obra.


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