FALANDO SÉRIO. Idoso: institucionalizar ou acolher em casa?

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Idosos.(Foto: O Mossoroense)


José Carlos Lassi Caldeira*


jclassiEm Évora, Portugal, na seiscentista Capela dos Ossos, construída com ossos dos freis franciscanos, há a célebre frase que remete à transitoriedade da vida : “ Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”.  

A maior idade ou “a melhor idade” são apenas retóricas para tentar minorar o sofrimento daqueles que após os 60 anos sabem que a hora de seu encantamento se aproxima. Afinal, idosos.

Esta é uma fase da vida que, salvo exceções, os problemas de saúde se tornam mais presentes, há uma piora do vigor e tônus vitais e há, sobretudo, as questões de ordem cognitiva que afetam cada vez mais um maior número de pessoas, dado o envelhecimento da população brasileira.

Estas questões se apresentam desde transtornos biopsicossociais leves com a preservação da capacidade de cuidar sozinho de si próprio até perdas funcionais graves nas áreas de cognição(da habilidade de compreender e resolver os problemas cotidianos), de mobilidade ( dificuldades de locomoção e da manutençao do uso de mãos e membros), da comunicação (da compreensão e expressão das linguagens,  do pensamento e expressão de idéias/ sentimentos/ afetos).

Muitas destas habilidades se perdem tanto por  doenças cérebro-vasculares  como AVCs (derrames ) ou arteriosclerose quanto por degenerações  neurológicas como Alzheimer ou E.L.A. ou Parkinson. Muitas das perdas ocorrem quando o indivíduo se encontra mais vulnerável afetivamente (vivendo sozinhos em casa, com dificuldades de audição e visão, sem o necessáriuo suporte familiar já  que os filhos muitas vezes têm seus trabalhos,seus filhos e seus próprio problemas,etc) ,aumentando sua dependência.

Na minha infância, em Patrocínio, os velhos com problemas cognitivos eram chamados caducos – uma expressão até carinhosa e eram mantidos na casa de algum dos filhos ou parente. Hoje com o imprescindível trabalho da mulher, restou pouco tempo à família para cuidar de seus idosos, em especial nos cuidados sociais e afetivos. As disfunções vão desde a incapacidade para banhar-se, usar sanitário e manter higiene pessoal, alimentar-se, vestir-se, entre outras tantas coisas comesinhas. A perda da memória é dentre todos, o fator determinante da deterioração da qualidade de vida e a maior causa dos problemas elencados.

Trabalhando no SUS- BH, nós médicos nos deparamos com frequência com situações desta natureza. Porém , apesar das dificuldades, temos tido um substantivo apoio do Centro Mais Vida da UFMG – Departamento de Geriatria. Este Centro oferece, além de cadeiras estofadas para todos os pacientes do SUS, uma medicina de qualidade que minora os sofrimentos desta parcela da população: pobre, velha e desamparada. Os recursos financeiros ali alocados pelo empresário Aloysio Faria deveriam servir de exemplo à parcela rica de BH (“ Nós ossos que aqui estamos…..”).

A partir daí, resta a questão: acolher em casa ou institucionalizar ( asilar)?. Apenas você sabe a sua resposta.


*José Carlos Lassi Caldeira é médico patrocinense radicado em Belo Horizonte, assina a coluna"FALANDO SÉRIO" no portal da Rede Hoje