NOSSO MUSEU. Ponderações de um profissional e artista

museu

 

Casarão do Museu Hugo Machado da Silveira e sede da Casa da Cultura de Patrocínio

 


Por Marcelo Pereira Guimarães


O conceito de que museu é apenas uma exposição do passado já se tornou um conceito ultrapassado. Museu é hoje a interação entre passado é o presente e a comunidade, visando preparar-nos para maior consciência para o futuro.

As duas intervenções que no monumento Museu Hugo Machado em Patrocínio foram realizadas sobre a minha orientação uma em 2000.

E a outra em 2016. Inclusive existem duas publicações a respeito, além de toda uma documentação fotográfica, além de relatórios diários destas intervenções.

Em 2016 contratamos uma empresa especializada em restauração de edificações do século XVIII onde foi realizado um diagnostico comprovando o péssimo estado estrutural desta edificação. Todos os esteios externos foram consolidados apos a perfuração de dois metros e meio de profundidade verificando que os mesmos encontravam-se deteriorados, apodrecidos é com ataques de insetos xilófagos.

Na ocasião não foram diagnosticados a situação dos esteios internos, pois não tínhamos verbas suficientes, pois teríamos que remover todo piso de madeira do primeiro andar.

Deixamos registrados várias propostas que iriam valorizar o rico acervo da educação, imprensa, tropeiros,personalidades,formação da nossa região através dos indígenas e quilombolas,memória fotográfica,projeto história linguagem oral. Este último projeto inclusive foi premiado.

O Museu possui acervo de 8.350 peças. A rua em frente a edificação foi fechada visando maior segurança para o monumento. Criando uma área para a realização de eventos externos e entretenimentos.

A reserva técnica foi transferida, buscando reduzir o peso instalado no piso superior.

Em relação a todo este assunto descrito acho inadmissível transformar o salão do segundo piso em uma sala de espetáculos tendo em vista não suportar o peso pela participação de 50 ou mais pessoas em cada evento.

Além disso, temos apenas uma porta de acesso após uma enorme escada não tendo saídas de emergência caso haja pânico ou qualquer acidente.

Relembrando com pesar o incêndio na boate Região Sul do Brasil onde vários jovens perderam suas vidas.

Mas, não imaginávamos(outubro de 2017) ver essa área externa invadida por TRUCKs de Alimentação como aconteceu lançando no espaço uma fumaça que atingiu o prédio histórico.

A casa não possui ALVARÁ completo que lhe dê permissão para atividades internas.

Foi feito denúncia no Ministério Público. O elevador de acesso ao segundo piso não estava em funcionamento devido a falta de assistência técnica. Não sei se já foi feito manutenção.

Outra justificativa é o desvirtuamento deste espaço museográfico para a realização de eventos. Sabemos hoje que museu é um espaço para realização de exposições temporárias, atividades culturais, excursões. Mas, tudo deve ser muito bem programado e desde que a instituição tenha condições técnicas para exercer tais atividades.

Outro fato é a verificações dos extintores de incêndio se eles estão atualizados pois devem ser trocados a cada 12 meses. Não sei como estão fazendo em relação circulação de ar.

Prédios históricos precisam receber circulação de ar para evitar surgimentos de pragas.

Conheço mais de 800 Museus inclusive no exterior. Nunca vi sala de concerto em Museu; Resido fora de minha cidade natal,mas nunca me afastei ou tive intenção de ignorar o que acontece e da forma que acontece.

CULTURA é um direito a ser preservado. Carece de discussão e diálogo. Não de decisões prontas e comunicadas. Sabemos sim da quantidade de eventos realizados. Mas, realizar evento não é implantar política pública é repetir os mesmos erros do passado.

Não temos informações em relação ao quadro de funcionários que estão hoje diretamente trabalhando no Museu Hugo Machado da Silveira.

Quem tem capacitação técnica em pesquisa histórica?

Qual trabalho está sendo desenvolvido para democratizar o acesso à cultura em todas as suas dimensões, sem preconceitos?

Quantos funcionários existem? A  cultura precisa ter espaço para se manifestar em suas diferentes formas. Existem dois conselhos municipais ligados diretamente a Cultura: patrimônio histórico e de política cultural. Mas,não temos informação das datas das reuniões,nem atas e nem participação de sociedade civil que não seja já membro do Conselho.

Na página online da FUNDAÇÃO CASA DA CULTURA, por sinal muito bem feita, em relação a fotografia não existe prestação de contas. No item relatórios direcionando para abril de 2018 e já estamos em agosto e até agora não temos acesso à questão relatório.

Qual a condição hoje da Fundação Casa da Cultura na questão jurídica?

As decisões são repassadas para o MP e o mesmo faz manifestação?

O Estatuto sofreu alguma alteração?

O repasse financeiro onde tem publicação de sua utilização? Foi feito alguma modificação?

Tendo em vista todas estas considerações aproveito para analisar outra situação.

Não acho plausível que se faça esta homenagem neste local criando uma sala de concerto.

O patrocinense Paulinho Machado é sim uma pessoa merecedora desta homenagem. Ou algo além de um espaço definido.

Principalmente pelo professor que foi é pela capacidade técnica, as belíssimas composições que ele criou. Composições que jamais serão esquecidas.

Não entendo o por que se colocar um piano de cauda no salão principal do museu tendo em vista o alto custo de sua colocação pois teve que desmontá-lo e afiná-lo.

Apresentou a indicação nome

Além de que, o Paulinho não era um pianista é sim um violonista.

A família Machado ao longo dos anos contribuiu consideravelmente para a história de nossa cidade. Poucas famílias têm entre seus membros pessoas tão inteligentes e de respeito.

Existe no acervo do Museu várias doações dessa família tão querida.

Outro aspecto que gostaria de questionar como se transfere um piano de cauda de um conservatório municipal de música – onde o mesmo era utilizado para dar aulas – para o Museu?

Lá, o piano vai ser usado só em apresentações esporádicas?

Por que não desenvolver no Conservatório aulas de piano?

Estão criando um espaço para apresentação musical em um prédio histórico que pode ao longo dos anos sofrer consequências com o fluxo de pessoas.

Por que não criaram esse espaço no Conservatório uma vez que Paulinho era músico por excelência?

Enfim, faço estas ponderações visando a segurança da edificação e todo trabalho que precisa ser desenvolvido na questão histórica.

É preciso “ressaltar que é a sociedade que produz cultura. O Estado possui outro papel: o de estabelecer mecanismos de preservação e incentivo cultural, o que significa dispor de recursos e instrumentos criados com a participação da sociedade como um todo.”

Nada difícil caso tenha interesse no dialogo,transparência e construção de ações com participação.

Devido situação de saúde não pude me deslocar e entregar pessoalmente, mas confio que medidas serão tomadas.

Att.:

Marcelo Pereira Guimarães

Especialista em Restauração de Obras de Arte é Arte cultura Barroca além de Artista Plástico