COLUNA DO IVAN. Lições de Civilidade

 

Por Ivan Batista da Silva


Falar da Copa do Mundo na Rússia parece coisa distante, tal a rapidez com que os acontecimentos são relegados ao passado. A velocidade dos tempos atuais não permite ater-se senão ao presente e os fatos passados são rapidamente descartados, apagados da memória coletiva. O que importa é o momento presente, despido dos momentos vividos e sem projeção do amanhã.

Mas relembremos a grande celebração do esporte mundial. A Copa da Rússia teve a vantagem de projetar uma nova imagem de um país visto no Ocidente como o gênio do mal, dentro da propaganda norte-americana. Pôde mostrar ao mundo sua cultura riquíssima e tradições seculares. Sobressai na dança-o balé, no esporte- a ginástica, na literatura- Dostoyévski, Tolstoi e o Formalismo Russo que mudou a literatura mundial no início do século passado. Um país onde, até em cidades do interior, a população vai ao teatro para ouvir ópera. O país pela primeira vez levou o Homem fora do espaço terrestre.

A Copa do Mundo, além do grande momento esportivo, é interessante porque revela a diversidade das nações participantes em sua cultura, em seus costumes. Na Rússia, a seleção japonesa chamou a atenção do Brasil e do mundo inteiro pela grande lição de civilidade ao limpar os vestiários e deixar mensagem de agradecimento depois de perder o jogo e ser desclassificada na copa. O Brasil ficou surpreso com esta atitude. Não foi apena um gesto de boa educação. Revela não só a cultura, mas principalmente a civilização japonesa.

A palavra cultura origina-se do verbo latino “colere” verbo que significa trabalhar o campo, cultivar. Daí vem, também, a palavra colonização, colono o que cultiva a terra em lugar de seu dono. Cultus, particípio do verbo, significa o que já está cultivado, a terra já preparada, pronta para ser desfrutada. Cultura, particípio futuro, do verbo significa a terra preparada que vai ser cultivada. Por analogia, culto é o Homem que já está preparado socialmente, que reúne em si elementos que lhe possibilita e lhe permite a vida na “urbis”, na cidade, com urbanidade, sinônimo de civilidade.

Cultus não significa somente preservar o que foi elaborado, ou cultivado sempre através dos séculos, mas também incorporar o resultado do que foi cultivado, estabelecer a cultura, ou seja, perpetuar a memória do trabalho realizado. E, através da memória, incorporar o passado ao presente, o realizado ao agora, em um processo cumulativo. Estabelece-se, assim, a possibilidade de enraizar no passado a vida e experiência atuais de um grupo, de uma sociedade e, ao mesmo tempo, permite incorporá-las ao futuro criando, assim, a cultura.

Esta experiências culturais de uma sociedade em seu momento presente é feita pela mediação de elementos que se tornam símbolos do grupo social: sua convivência, suas crenças, a arte, a dança, o canto, o ritmo, o teatro que embora vividas no presente, permite construir o futuro deste grupo social. Cultura é, portanto, conjunto de práticas, de técnicas, dos símbolos e valores que devem ser transmitida a gerações futuras, às novas gerações para garantir a unidade social. São os gestos, atividades e experiências individuais ou de um grupo que contribuem para a estratificação e coesão social de um povo. Enquanto o elemento cultural resulta de atos individuais, a civilidade pressupõe a cultura como base, se realiza a partir dela e se realiza como resultado de toda a população. Está, enfim, um grau acima da cultura. Não resulta de elementos individuais e sim de elementos coletivos. São aspectos e valores incorporados como experiências de um povo em sua totalidade, permitindo a perpetuação de sua memória por muito tempo, por séculos. Assim, podemos falar de civilização romana, civilização oriental.

Mas voltemos aos japoneses. É um povo que tem um profundo respeito às pessoas, valorizando sua individualidade e respeitando todos os seus atos, seu modo de ser. Conhecem realmente a importância do indivíduo em seu grupo, em seu meio e nos deixaram esta belíssima lição de civilidade. Fátima Yukari, nossa professora, conta-nos que em determinadas cidades do Japão as escolas são setorizadas e os pais são proibidos de levar as crianças desde os sete anos à escola por causa do trânsito e para não ocupá-los em tarefas diversas. Existe um líder que se destaca pelo uso de um gorro e de uma bandeirinha e vai arrebanhando a meninada no seu quarteirão, na sua região. Quando chegam nas esquinas, o líder levanta a bandeira, os carros param, as crianças atravessam. Atravessada a rua, as crianças viram para trás e se inclinam para agradecer os motoristas. Coisa fantástica!

Não tem como comparar a atitude de brasileiros na Rússia com os japoneses. Um postou fotos depreciativas e imorais sobre as mulheres russas; o outro, um engenheiro agrônomo, da mesma forma, postou fotos do mesmo teor criticando as mulheres daquele país. Vergonha nacional! Isto demonstra que ser culto e ter civilidade não é apenas ter conhecimento ou status social. Quem foi à Rússia são pessoas endinheiradas, de status social mais elevado e deram vexame. A cultura e civilidade pressupõe muitos outros valores sociais. Pressupõe, no mínimo, o conhecimento das características de seu povo, o polimento no trato social. Em relação a outros povos, conhecer a sua diversidade cultural, tratando-as com um profundo respeito.

Os jogadores nos deram uma grande lição de civilidade que eu seu país começa na mais tenra idade, no caminho da escola. Talvez, um dia, sejamos como eles. Haja tempo!


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