COLUNA DO IVAN - Beirando 1964

 POR IVAN BATISTA DA SILVA


 A História de um povo ou da própria humanidade é construída de marchas, de progresso, mas também de contramarchas, de momentos de impasses. Quando não se consegue vislumbrar o futuro, a tendência é agarrar-se ao passado ou trazê-lo para o presente.

 

No Brasil, vivemos esta situação. Um jornal francês, no dia oito deste mês, em uma reportagem sobre o nosso país, afirmou: ”Depois da destituição controversa do governo de esquerda de Dilma Roussef, o Brasil parece ter perdido o controle de seu destino”. Na profunda crise institucional em que vivemos, a população, perplexa, aturdida, sem destino, descrê do futuro e procura agarrar-se a uma tábua de salvação, buscando no passado uma solução para o impasse.

 

A tábua de salvação, hoje, parece ser a volta dos militares ao poder. Claro que a geração atual desconhece completamente o que foi a ditadura militar. Houve um progresso enorme da economia, do sistema de transporte. Mas houve também aspectos próprios das ditaduras que mancharam todo o governo: a supressão de direitos políticos, a cassação de políticos e professores universitários e secundários, a tortura institucionalizada e principalmente a coerção à liberdade de pensamento e de expressão com censura na mídia e no meio artístico. Houve perseguição em todos os meios sociais, do político ao meio artístico. Nas Universidades, para os que discordavam da linha de governo ou tivessem um pensamento mais à esquerda, havia sempre o temor de serem delatados à polícia pelo chamados dedos-duros..

 

Para grande surpresa dos que viveram o regime militar, viu-se, durante a greve dos caminhoneiros, o slogan “governo militar já” espalhados pelas rodovias. Vê-se o candidato militar a Presidente da República recebendo grande apoio no meio da juventude, no meio agrário e entre os conservadores. Diante de um governo inerte, ilegítimo, fraco, resultante de um golpe, a população quer novos rumos para o país, quer o fim desta frouxidão, o fim de um governo sem eira nem beira. O povo vê nos militares a possibilidade de um governo forte.

 

Além disto, outras manifestações de forma velada lembram o período de 64. O tribunal de Curitiba, que mais parece um tribunal de exceção, viu corrupção apenas em dois partidos, como se esta não fosse uma coisa endêmica na política e na sociedade. No episódio recente da soltura de Lula pelo desembargador, quem a vetou foi o juiz Sérgio Moro que estava de férias e não podia estar despachando. Além disto, a soltura de um preso não cabe ao juiz que o condena e, sim, ao juiz do sistema presidiário. Passam por cima da lei como se isto não tivesse nenhuma consequência, como se os meios justificassem os fins.

 

Outro fato: um delegado federal abriu um inquérito contra o reitor da Universidade de Santa Catarina, porque houve críticas à atuação da polícia em um discurso do Reitor. Ora a Universidade é o campo do livre pensamento. Abrir um inquérito por discordar ou pensar diferente de quem está no poder é uma repetição clara dos métodos de 64 com os famosos IPM, inquérito político (ou policial) militar com os quais cassaram muitos e muitos professores universitários e políticos.

 

Estes três exemplos nos aproximam de uma fase nebulosa da história brasileira, o período de 64. O ministro do STF, Celso Melo, em um recente pronunciamento disse: “É preciso ressaltar que a experiência a que se submeteu o Brasil no regime de exceção constitui para esta e próximas gerações uma grande advertência que não pode ser ignorada”. Não se pode ignorar os erros do passado, nem repeti-los.

 

É possível alegar que agora os militares chegarão ao poder pela democracia, pelo voto. O risco é que temos uma chapa puro sangue: dois militares da linha conservadora, da ultradireita. Se eleitos, claro que não conseguirão resolver todos os problemas que afligem o pais e a população. Poderão, não entanto, resolver muito deles e estabelecer novos rumos para o país. Mas fica a pergunta: e se não tiverem apoio do Congresso para as reformas necessárias? Fecharão o Congresso por algum tempo para realizá-las? Instalarão um regime de exceção?

 

Isto atemoriza quem valoriza o estado de direito. O que ninguém quer é ver os vinte e cinco anos do regime de exceção serem repetidos quarenta anos depois.


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