COLUNA DO IVAN. O delator

Por IVAN BATISTA DA SILVA

 

Fui à locadora à procura de um filme com o nome acima: o delator. Jurava a mim mesmo que tal filme existia. Talvez de tanto se falar em delação nos últimos tempos, tenha se formado em minha mente a sua possível existência . Como não existe, a política brasileira fornece atualmente subsídios e mais subsídios aos produtores para a realização cinematográfica.

Na realidade, delator quase soa como um eufemismo de traidor. No tempo em que, no colégio, que se estudavam fatos da História do Brasil, sabíamos que o maior traidor ou delator da nossa história, foi Joaquim Silvério dos Reis, na Inconfidência Mineira. Pôs a perder a Conjuração Mineira, movimento para livrar o Brasil do domínio português. Até algum tempo atrás, ninguém era mais desprezível que os traidores. Eram considerados pessoas vis, sem dignidade, em quem ninguém confiava. Dizer que uma pessoa havia traído colegas, companheiros era colocá-la ao rés do chão e desprezá-la. A traição traz vantagens pessoais a um indivíduo em detrimento de outras pessoas. Todo traidor busca benefícios próprios , embora consciente de que outras pessoas serão prejudicadas. A pessoa traída sente-se moralmente ofendida, ou sofre, quando sob o jugo da justiça, duras penas físicas e mesmo psicológicas. O traidor cheira a enxofre. Os Inconfidentes foram presos, mortos, ou degredados. Silvério dos Reis teve sua dívida com a coroa portuguesa perdoada, ganhou casa e encheu-se de honrarias. E permaneceu como maior traidor até aparecer o Dr. Moro que produziu traidores e traidores.

Na época atual, em que prepondera o individual sobre o social, em que a sociedade já não julga imprescindíveis valores basilares da vida pessoal e da convivência social, em que o individual se sobrepõe ao coletivo,a traição ganhou nome suave:delação. Encontra espaço na sociedade sem se tornar desprezível. Até agora não vi ninguém condenar o ato de delação dos presos do Dr. Moro. A sociedade vê como natural a delação, a vê como a salvação do indivíduo. Ganhou até um adjetivo sonoro: delação premiada.

Os delatores, forçados ou não pelas circunstâncias, buscam salvar a própria pele, embora tenham plena consciência das conseqüências de suas delações para seus companheiros. É um salve-se quem puder. Fica-nos a pergunta: até que ponto estas delações são naturais, espontâneas, ou são resultados do abalo psicológico decorrente da prisão? O indivíduo fora da prisão, faria a delação do mesmo jeito? Acredito que não. Desta forma, a delação torna-se coercitiva, pois o indivíduo fala sob o rigor do juiz e trair os companheiros é sua única condição para se ver livre da prisão.

Aristóteles em A POLÍTICA nos diz que “ao Homem são necessárias duas coisas: a virtude e a prudência”. A delação é a negação de toda e qualquer virtude, pois é premeditada a intenção de trair e prejudicar companheiros em proveito próprio. 

Como tudo é transitório, efêmero, pode ser que em breve já não se fale mais em delatores. O Dr. Moro com sua lava-jato já cumpriu sua missão: destruir o PT e ajudar a criar condições, junto com os outros partidos, para a usurpação do poder por Temer, para a traição à Presidente eleita. Alguém duvida de que em breve encerrarão a lava-jato? Os outros partidos, com a aquiescência do Dr. Moro, ficarão acima do mal, como convém à elite brasileira.


IVAN BATISTA DA SILVA é professor, diretor executivo do Colégio Atenas e colunista da Rede Hoje


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