COLUNA DO IVAN. O Colégio Regina Pacis

Por IVAN BATISTA DA SILVA*

Foto 01Estudei com os padres holandeses dos Sagrados Corações não aqui no Dom Lustosa, mas no Regina Pacis em Araguari. Era um colégio mais novo que o nosso de Patrocínio, mas era enorme. Não se trata de uma visão de criança e adolescente para quem a noção de espaço é sempre ampliada, maior. Era realmente um colégio muito grande. Tinha seis campos de futebol para jogos corriqueiros e um campo gramado de tamanho oficial, com sistema de irrigação subterrâneo que era usado no máximo uma vez por semana. Junto ao campo oficial havia ainda barras para ginástica, ou exercícios físicos como se diz hoje, pista de corrida de 400 metros, salto extensão, salto altura, arremesso de peso. Um complexo esportivo completo. A piscina ficava na chácara. Havia, ainda, uma quadra de basquete iluminada. Naquela época, o futsal não existia, e o vôlei era também praticamente desconhecido. Sobrava, ainda, muito terreno com bucólicas alamedas, ladeadas de ciprestes, eucaliptos e espatódias. Até um cemitério exclusivo para os padres existia dentro do terreno do colégio para terror dos alunos nas brincadeiras noturnas. Também existia uma horta enorme para alimentar a meninada. Acredito que o terreno todo incluía uns doze ou quinze hectares. Isto tudo em uma avenida bastante central, a avenida Minas Gerais.

Era uma estrutura física impensável em qualquer outro lugar naquela época. Possuía, já na década de 50, um poço artesiano automático que não existia nem nas prefeituras da região. Posteriormente, perfurou-se mais um poço para manter a horta. O campo de futebol bem tratado e a quadra iluminada, orgulho de todos nós, os clubes da região nem sonhavam em ter.

Atrás do Regina, ficavam a Maqnelson, ainda no seu início, e o campo dos ciganos, misto de pavor e admiração dos cento e vinte alunos internos. Ali ficavam acampados um, dois meses. Certa feita, ficaram apenas uma semana. O padre nos explicou: estavam fazendo concorrência com “negócios” de um grupo da cidade e a polícia os expulsou.

Foto 02

Na década de setenta, houve uma grande pressão sobre os padres para que o terreno fosse incorporado a um novo bairro, quando a cidade começou a envolver o colégio. Foi vendido na década de 80 por um bilhão de cruzeiros que, na maxidesvalorização da época, passou a um milhão e com mais uma maxidesvalorização ficou em um mil, ou seja, como o Dom Lustosa, foi vendido a preço de caminhão velho como dizia o padre Caprázio. Restaram apenas o campo oficial e os prédios. Onde havia um terreno enorme e campos de futebol, onde havia um cemitério e uma horta, surgiram ruas e casas, o bairro Regina. Os padres do Regina eram quase todos professores e as orientações pós-conciliar eram outras: os padres deveriam se dedicar mais à evangelização e não ao ensino.

No ano passado, fomos um grupo de amigos e ex-alunos visitar o Regina. Uma amizade profunda, duradoura, alicerçadas nas idéias afins, no estudo do Latim, do Grego e do Françês, no canto gregoriano e em muita leitura, nos reuniu outra vez no Regina.

Ali, funciona, hoje, em uma ala, a Universidade da UNIPAC e no outro prédio de antigos dormitórios, refeitórios e salas de lazer, tanto dos internos quanto dos padres, funciona um colégio do Objetivo. Ambos nos permitiram uma visita livre em todas as dependências. A diretoria da UNIPAC nos recebeu com entusiasmo e nos possibilitou e nos acompanhou em uma visita a todas as suas dependências, inclusive nos laboratórios de seu curso de medicina.

Foto 03Os prédios foram todos conservados. Os prédios da carpintaria, do auditório, da oficina ,dos dormitórios, refeitórios, salas de aula e de estudos, biblioteca, capela ainda existem. Outras construções foram feitas para atender à expansão da Universidade. Ao percorrermos com muito entusiasmo e muita emoção os mesmo corredores, ao pisarmos os mesmos ladrilhos e subirmos as mesmas escadas de tantos anos atrás, mil recordações nos ocorreram em nossas mentes como um filme fragmentado.

Percebemos que os prédios envelheceram como nós envelhecemos. Mas de prédios que se reformam, se renovam ou se destroem, sabemo-lhes o destino. A nossa vida, no entanto, não se passa a limpo; a vida se esvai, ou se esvazia, sem que saibamos o nosso destino, o nosso fim. Lembramo-nos das palavras de Sartre: “escorreguem mortais, não queiram segurar-se”.

*IVAN BATISTA DA SILVA é diretor executivo do Colégio Atenas em Patrocínio-MG


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