CRÔNICA. Histórias de Patrocínio - O Velório - por Imaculada Machado

O VELÓRIO

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Por Imaculada Machado

 

Tio Massillon além de poeta era um grande contador de histórias e “causos.” Ainda criança, eu ficava por ali de antenas ligadas, prestando atenção até nas vírgulas, exatamente para não perder detalhe sequer do que ouvia.

Contava ele que certo morador da cidade fora acometido por uma estranha e desconhecida doença. A moléstia não teve cura e o homem acabou falecendo.

Como o morto era muito estimado, logo que a notícia se espalhou, os vizinhos e amigos foram chegando para preparar o corpo e organizar o velório. A casa era bem pobre e o mobiliário mais miserável ainda, resumindo-se a três bancos estreitos na sala e, no quarto, a uma única cama.

Deu-se então início às providências necessárias: o defunto foi lavado e vestido, velas foram acesas, crucifixo colocado na parede de adobe, flores singelas num jarro velho, e como não havia alternativa, resolveram colocar o corpo num dos bancos da sala, até que caixão ficasse pronto no dia seguinte. E ali ficou sendo velado o “de cujus” com as mãos cruzadas no peito.

Vez por outra era servido um cafezinho ralo e doce, chá de funcho e uns biscoitos de polvilho meio murchos, na tentativa de tapear os estômagos para que os presentes aguentassem firmes até o dia amanhecer.

A noite foi seguindo lenta, o cansaço então dominou e todos já tiravam o centésimo cochilo. Lá pelas tantas, a fita que segurava as mãos do morto desatou e seus braços caíram para os lados, dando a impressão que se levantava do banco mortuário.

Aí foi uma gritaria geral. Um Deus nos acuda. Um verdadeiro pandemônio. Em desatino, todos correram para a porta de entrada. Só que esta era estreita demais e não tinha como dar passagem para tanta gente de uma só vez. Então buscaram socorro nas janelas. Mas, na sala, janela só havia uma. Em resumo e para finalizar a história, o último que conseguiu escapar daquela situação inusitada saiu com a única janela pendurada no pescoço.

E o coitado do defunto ficou lá com os braços dependurados, certamente até que algum corajoso voltasse para verificar se ele estaria morto mesmo ou se teria ressuscitado.


  

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