COLUNA DO IVAN. As vaias fora de lugar

A convivência humana sempre é pautada por normas e regras de relacionamento. Normas implícitas e explícitas, formais e informais, corriqueiras ou depuradas a que chamamos, enfim, de etiqueta social. Tenho por mim que as vaias são as formas mais abomináveis de manifestação da convivência humana. Não deveriam existir lugares para vaias, mais elas existem. Aparecem como forma de se manifestar contra a expressão de uma ideia, de um pensamento, de uma atitude ou um comportamento. Revelam, ainda, o deboche, a aversão, o desprezo, a provocação a uma pessoa ou a um grupo. Em manifestações coletivas que envolvem adversários como em jogos, elas são corriqueiras. Substituem a luta, a gladiação. Como não se pode atacar fisicamente o adversário, tenta-se anular e quebrar o seu moral pela vaia.

Esta reflexão vem à tona, pelas vaias ocorridas durante a abertura das Olimpíadas no Rio. A festa foi maravilhosa como a própria cidade do Rio de Janeiro. Jogo de luzes e cores, encenações como muita história e simbologia, fizeram da abertura um momento inesquecível e de ufanismo brasileiro que só se manifesta nestas épocas de jogos e competições. A música brasileira também esteve muito bem representada pelo samba, pela MPB, Ary Barroso, Tom Jobim, faltando apenas a música romântica de Roberto Carlos que merecia estar presente.

Infelizmente, os espectadores vaiaram a representação Argentina. Tratava-se de uma abertura, de recepção às delegações e não de jogo, de enfrentamento e por isto foi uma atitude deplorável dos brasileiros. Não se recebem pessoas, em lugar nenhum, de modo tão deselegante. Somos rivais dos argentinos em tudo, mas não era momento para transparecerem as animosidades. Houve uma recepção calorosa para todas as delegações, menos para a da Argentina. As pessoas vão perdendo a noção do ridículo.

Outra vaia desnecessária e totalmente inadequada, deplorável mesmo, foi no momento em que o Vice-Presidente anunciou a abertura dos jogos. Michel Temer não teve, propositalmente, seu nome mencionado no início da cerimônia, passou o tempo todo encolhido em sua cadeira, sem um gesto, sem nenhum contato com as pessoas ao seu lado, tentando passar despercebido, querendo estar longe dali, evitando as vaias que pareciam inevitáveis. É claro que pesa contra ele o fato de ter participado do golpe contra a presidente Dilma e ter lhe usurpado o poder, mas naquele momento ele era o Presidente, ladeado de representações diplomáticas, de chefes de outros países, como o Presidente da França, e merecia tratamento melhor por parte dos espectadores.

Declarar aberto os Jogos Olímpicos foi o momento mais esperado e simbólico da cerimônia, em que o Presidente, como chefe do país, acolheu as delegações e o Brasil se tornou o anfitrião e realizador da competições. Um gesto transmitido para bilhões de pessoas no mundo inteiro, visto pelo menos nos duzentos e oito países participantes. Os brasileiros em vez de explodirem em aplausos e alegria, fizeram chegar ao mundo inteiro uma grande vaia. Certamente em muitos países não entenderem o que estava acontecendo ou imaginaram que éramos contra os Jogos. Dizer que as vaias vieram de pessoas pouco instruídas, com baixa escolarização não procede, pois, com ingressos tão caros, quem estava na abertura eram pessoas de nível econômico mais elevado.

A Presidente Dilma também foi vaiada na abertura da Copa do Mundo em Brasília. Com ela ainda foi pior, pois além das vaias foi atacada com palavrões que nunca deveriam ser dirigidos a uma mulher, muito menos à Presidente da República.

Não entendo o porquê da imprensa e toda a mídia com a sua força de persuasão não trabalhar para evitar estes momentos desagradáveis. Se a televisão tivesse durante a semana em diversos momentos falado sobre a inadequação de vaias na abertura, certamente elas não teriam acontecido. Além da sua função de informar, poderia também trabalhar na educação de nosso povo.

Nelson Rodrigues tinha razão quando disse que o brasileiro é capaz de vaiar até minuto de silêncio.

 


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