COLUNA DO IVAN – Outra vez o Regina Pacis

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Colégio Regina Pacis - Araguarí - MG - Foto: Acervo do Colégio

 

Acredito que ter estudado com os padres holandeses da Congregação dos Sagrados Corações, aqui em Patrocínio ou em Araguari, é motivo de muito orgulho para muitas gerações que passaram por estes colégios. Cultos, os padres transmitiam uma formação sólida alicerçada nos princípios católicos e em uma visão de mundo muito acima de nossa cultura. Tanto no Dom Lustosa como no Regina Pacis, em Araguari, formaram gerações de intelectuais que tiveram papel importante em nossa sociedade.

 

Época muito marcante na vida de qualquer jovem, o período de estudante foi muito mais intenso para os internos do Regina. As lembranças surgem à medida que procuro entender esta influência dos padres em nossa formação. Os padres eram muitos no Regina. Moravam ali quase sempre doze padres. Austeros no seu viver e no seu trabalho, a disciplina e a obediência aos seus superiores eram um princípio básico das suas atividades exercidas sempre com muita dedicação. Não tinham carro, tinham bicicletas; uma ou duas lambretas(as motos da época), no mais andavam a pé. Havia, ainda, a Kombi do padre Pio para cuidar da despensa e o fordinho do Padre Mário. Este fazia todos os carretos do colégio e, de vez em quando, levava a meninada na piscina da chácara, onde se ia normalmente a pé; no entanto, era uma alegria geral o dia em que o padre Mário se dispunha a levar a turma de caminhão. Mas o fordinho tinha uma missão mais nobre: levar e buscar a turma de Belo-Horizonte, cerca de trinta, quarenta alunos, em Monte Carmelo para irem ou voltarem de férias nos velhos trens da Rede Mineira de Viação(ironicamente chamada de Ruim Mais Vai). Sentados em cima das malas ou em pé, agarrados atrás da boleia, a algazarra era geral ao sabor do vento e da poeira.

 

No Regina, a disciplina era rigorosa: ginástica todo dia às seis e quinze da manhã, exceto aos domingos; horário de estudo, de leitura, de trabalho e de esportes. Mas a convivência com os padres era muito agradável. Estavam sempre dispostos a conversar com os alunos e povoar nossa mentes com suas viagens de navio e as maravilhas da Europa. Eram muito metódicos e isso criava, às vezes, situações engraçadas e incompreensíveis para nós, como suas pescarias. Padre Eduardo e Padre Pio eram bons pescadores. Suas pescarias de domingo à noite tinham hora para começar e terminar. Podiam estar no melhor momento da pescaria, dava o horário de terminar, recolhiam a tralha e nem um tempinho a mais. Coisa de holandês.

 

Os padres eram empolgados com o progresso técnico: o computador (que ninguém ainda conhecia), o Sputnik e os primeiros satélites girando no espaço, a viagem de Gagarin ao espaço, o futuro da exploração espacial, os avanços da medicina. Era comum algum padre ir, à noite, ao pátio escuro, vislumbrar satélites girando no espaço. As inovações nos chegavam da Europa: as máquinas fotográficas modernas, os gravadores ainda raros à época. Voltavam de suas férias sempre trazendo alguma novidade e admirados com a rápida recuperação da Alemanha no pós-guerra( a Alemanha faz divisa com a Holanda). Os padres holandeses eram fãs dos americanos, pois foram os primeiros a mandar alimentos para a Holanda no pós-guerra. No entanto, com padre Mário, que era brasileiro, aprendi a ser antiamericano.

 

Todos os padres eram muito bem informados tanto sobre a política internacional quanto a nacional. Lembro-me de padres emocionados na crise dos mísseis, em Cuba, com receio de estourar a terceira guerra mundial. Um dos poucos dias que nos foi permitido ouvir rádio, foi em trinta e um de março de 64 para acompanhar a movimentação das tropas de Minas para o Rio. Eram tão bem informados que um mês após a revolução, já sabíamos que navios americanos estiveram próximos à costa brasileira para uma intervenção caso a revolução não desse certo, coisa que só há pouco os historiadores vieram confirmar. Acompanhavam a efervescência política e nos envolviam em seu encantamento com o progresso da nova época que surgia. Claro, sem esquecer os horrores da segunda guerra que muitas de suas famílias tinham vivido.

 

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Trem da Rede Mineira de Viação. Foto: Acervo Prefeitura de Três Ranchos - GO

 

Às vezes, com alguns colegas, fico tentando entender como um ambiente fechado de internato, sem televisão, sem rádio, sem cinema, sem jornal diário, nos proporcionou uma formação tão sólida, fundamentada em uma ampla visão de mundo e do Homem. Isto não se deveu apenas ao ambiente cultural, com alguns padres empolgados com as teorias de Einstein, outros com as teorias de Freud e Lacan, outros, ainda, com diversas áreas do conhecimento e coisas da atualidade. Não se deveu apenas ao apreço à música, ao canto gregoriano; ou, ainda, ao estudo da cultura clássica, ao estudo do grego, do latim nos textos de Platão, Ovídio, de César; ou ao ambiente de muita leitura.

 

Tudo isto foi muito importante. Fator primordial, no entanto, foi que os padres nos ensinavam a pensar, a discutir idéias, a buscar o conhecimento. Nas conversas descontraídas com eles, no pátio mais que nas aulas, o importante era aprender a raciocinar, entender a origem, o porquê dos acontecimentos, quem os provocava, as conseqüências dos fatos; entender o trabalho de grandes cientistas, das grandes personalidades de épocas anteriores e da nossa , numa visão ampla e coesa sem fragmentações.

 

Praticavam os padres a verdadeira maiêutica socrática sem que percebêssemos. Éramos muito novos, mas nos proporcionaram uma base cultural sólida, um conhecimento intenso e nos ensinaram a analisar e entender a realidade que nos cerca. Além, é claro, da formação humana e religiosa. Na nossa educação, era primordial a afirmação da personalidade, o desenvolvimento intelectual, a construção do pensamento através de muito raciocínio e a autoafirmação pela capacidade de compreensão do mundo à nossa volta.

 

Estes foram os elementos básicos de nossa formação. Por isto, nos sentimos orgulhosos de termos estudados com os padres dos Sagrados Corações, no Regina Pacis, um colégio que, para nós, continuará a existir indefinidamente.



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