COLUNA DO IVAN. Aqui Só Tem Livros

Aqui Só Tem Livros

 

*Ivan Batista da Silva

 

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A frase acima é o título de uma crônica de Rubem Braga. Estando para mudar de apartamento, a transportadora manda à sua casa um avaliador da mudança. O avaliador pede-lhe o telefone emprestado,  liga para a empresa e diz: “Aqui só tem livros”. Rubem Braga sentiu-se ofendido com o tom de desprezo do funcionário, pois tinha o maior apreço pela sua biblioteca.

 

 

Releio a crônica  e aproveitando a folga morrinhenta de sábado, volto-me para a minha pequenina biblioteca. Passo um olhar demorado sobre os  livros aqui e ali em estantes diversas. Olho as gramáticas que me acompanharam em meus quarenta e três anos em sala de aula, algumas renovadas em decorrência de uma reforma totalmente desnecessária da Língua Portuguesa;  anotações várias, exercícios elaborados em folhas soltas em um tempo em que a gramática era a rainha do ensino do Português. Depois veio o estudo de  texto e a gramática tornou-se, atualmente, uma mera e pobre vassala da Linguística. A gata borralheira sem final feliz.

 

Releio algumas páginas de Rui Barbosa, o grande Rui, cheias de ideias brilhantes e me pergunto: para que servem estas ideias brilhantes se hoje o que importa é não ter ideias?  E o raciocínio bem arquitetado, bem  construído e cheio de sutilezas de Padre Antônio Vieira que lugar ocuparia no mundo atual, onde tudo vem pronto e tudo é tão prosaico, abaixo do nível mediano?

 

A obra de Bilac salta-me aos olhos ao lado de tantos outros poetas. Não  se fala mais nas escolas em Bilac que com seu patriotismo conseguiu  tornar obrigatório o serviço militar. O patriotismo desapareceu das escolas, desapareceu da sociedade.  Falar em patriotismo hoje é como falar de dinossauros. Sumiu principalmente onde não poderia faltar: na política, nas assembleias legislativas, no Congresso Nacional.  Se bem que a política brasileira parece que nunca foi lá grandes coisas, pois José de Alencar, o escritor, há mais de um século,  em 1874, quando deputado disse: ”essa política sorna, tíbia, sorrateira e esconsa, que à maneira da carcoma rói e corrompe a alma do povo.”

 

Não resisto e leio alguns poemas de  Castro Alves, poesia grandiosa e eloquente de exaltação à natureza brasileira e sobretudo de luta contra a escravidão. Ainda  gosto de relembrar a beleza dos seus versos em sua saudação à Bandeira Nacional: “Auriverde pendão de minha terra natal/ que a brisa beija e balança”. No entanto, sua  obra  hoje está   sufocada pela  nossa síndrome de Nabuco. Achamos  que tudo que vem de fora de outros países é melhor que nossas tradições, nossa natureza e nossa alma brasileira. Que patriotismo que nada! O melhor é exaltar o Tio Sam!

 

Encontro a obra de  Gonçalves Dias com seu lirismo e valorização da natureza! Não há mais árvores onde havia matas, não há mais árvores onde havia cerrados. Existem apenas as palmeiras cultivadas no jardins das cidades. Sorte do sabiá.

 

Inúmeros romancistas vão se sucedendo na estante à espera de quem  novamente os lê. Vem-me à memória a avidez com  que os  lia ou preparava aulas com as obras de Raquel de Queiroz, Graciliano, Rosa,  Machado, Alencar, João Cabral.A riqueza de personagens de Érico Veríssimo, criando personagens com a  caricatura de seus familiares.

 

Folheio alguns livros  de Lígia Teles, Clarisse Lispector, Mário de Andrade, Ferreira Gullar, Bandeira, Flaubert, Dostoievisk,  Murilo, Eça  revendo as sutilezas e  desencontros da vida humana. Tantos outros autores a me provocar encontros e desencontros com a vida nesta busca permanente de entender o  ser humano, entender o homem diante de si mesmo e do outro.

 

A beleza  e grandiosidade de versos de Fernando Pessoa(“ Deus ao mar o perigo e o abismo deu/ mas foi nele que espelhou os céus), se iguala à obra de José Saramago, também português. Este não permitiu que seus livros fossem editados aqui utilizando o português do Brasil. Manteve seu estilo puríssimo em um português clássico espelhando toda a sonoridade de nossa língua. 

 

Livros rotos, mas bem cuidados, coleções dos melhores autores vão se sucedendo nas estantes. Esforço-me para me lembrar em que época li este ou aquele volume. Recordo-me de debates com meus alunos em sala de aula, ensinando-os a entrar no reino da literatura, procurando entender o espírito de cada autor em um debate livre, franco, sem esta besteira de hoje a tal  escola sem partido. Professor sem ideias próprias é apenas massa amorfa, não sabe educar, pois não sabe pensar. Só educa quem tem visão própria de mundo e sabe levar o aluno a construir seu pensamento.

 

Coleções novas ainda não lidas  me despertam uma sensação de impotência diante de tanta leitura para me atualizar e me redimir diante destes autores que o tempo me fez relegá-los à obscuridade em minha mesa. Sinto, também, que preciso depurar a minha biblioteca desfazendo de alguns volumes hoje desnecessários, assim como a idade vai depurando a minha vida.

 

Revejo livros e o tempo em que as pessoas se orgulhavam de tê-los  na estante da sala, ainda que fosse uma enciclopédia Barsa. Os livros perderam o  seu encanto, ou é apenas mais prático clicá-los na tela do computador?  É certo  que dentro de trinta anos sua impressão  em papel terá a mesma importância que tem os hieróglifos para nós hoje. Ou seja nenhuma importância. Mas seja em que formato for,  o nosso consolo é que ele não desaparecerá. O Homem sempre há de sentir necessidade de externar suas emoções, sua dor, suas dúvidas diante da vida  e de cantar a grandiosidade dos feitos humanos como o fez Camões em “Os Lusíadas”, exaltando a nacionalidade portuguesa e a viagem de Vasco da Gama, ao descobrir o caminho marítimo para as Índias. Como Camões,  talvez daqui a uns trinta, cinquenta anos, algum autor cantará a colonização de Marte ou da Lua, pois “ os grandes livros surgem quando novos pensamentos modificam o  mundo, quando os povos  realizam feitos inusitados  quando o escritor capta as grandes emoções da humanidade.


 

*Ivan Batista da Silva é diretor do Colégio Atenas e cronista - colaborador - da Rede Hoje