COLUNA DO IVAN. Cento e doze dias sem chuva.

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Por Ivan Batista da Silva*


Cadê a chuva? Era a pergunta que mais se ouvia na rua nestes últimos dias. Felizmente a chuva veio mansa e serena por uma dia e uma noite para alegria de todos. Realmente tivemos um período longo de estiagem, como nunca tivemos em nossa região. A última chuva foi dia seis de junho, mesmo assim chuva fraca. É de assustar .

A realidade é que o tempo mudou. A natureza não é mais a mesma. Basta lembrarmos do período de chuva anos e anos atrás. Chovia regularmente e no período de chuva, a partir de outubro chovia muito. Em dezembro chovia até três semanas seguidas. Chovia sem parar dia e noite. Quase não existia Natal sem chuva, por exemplo. As chuvas iam de outubro a março, com pausa no veranico de janeiro. Março chovia muito. E tinham as famosas enchentes de São José. Chovia, chovia, chovia. Aliás eu sempre ficava tentando entender porque São José era tão generoso e fazia chover tanto no mês de seu aniversário até que o professor Amir, que é professor de Geografia, me deu uma explicação científica para tanta chuva.

Mas o tempo mudou. A natureza está desregulada. E ficamos preocupados aonde isto vai parar. A natureza é mãe, porém é também madrasta. Quando o Homem a agride, ela responde com agressão. Há vários fatores que fizerem com que diminuísse o tempo das chuvas. Entre estes, está o desmatamento; retiraram as árvores todas, não há mais umidade na terra, a evaporação é muito pouca para formar nuvens. Outro aspecto: não há proteção adequada das nascentes e dos rios. Toda nascente ou olho d’água que seja desmatado ou queimado, seca. Os rios diminuem suas águas quando suas cabeceiras são desmatadas.

Mas há outro problema sério: a retirada da água do subsolo. Vimos no noticiário, estes dias, um rio que há cinco anos, tinha dois metros de fundura, agora mal cobre os pés. Este mesmo rio, há três anos, tinha uma vazão de 40litros/s e agora são apenas 4litros/s. Ou seja, os rios estão secando. Estão secando porque estão retirando suas águas para irrigação. Ou, que é pior ainda, estão tirando tanta água do subsolo para irrigação, para consumo, para mineração que os lençóis freáticos já não afloram à superfície. Desta forma, as minas d’água secam e, em todos os lugares, os rios diminuem tanto sua vazão que não conseguem manter o seu leito, pois não conseguem empurrar a areia e vai se assoreando todo. Sem falar nas lavouras que empurram a terra arada para o leito dos rios e dos córregos ajudando no processo de assoreamento.

Vê-se, por toda parte, a agressão à natureza. No caminho de Belo Horizonte, percebe-se que fizeram lavoura nas áreas de vazão do rio São Francisco. Quando vierem as chuvas, resíduos de agrotóxicos contaminarão a fauna e flora aquáticas. Dizem que, no Norte de Minas, estão plantando eucalipto nestas mesmas área de sua vazão. Vão, assim, “roubando” estes espaços dos rios. Aliás os cientistas estão afirmando categoricamente que, se na nada for feito para salvar o Rio São Francisco, ele vai desaparecer. E quem vai fazer alguma coisa se os governos querem apenas atender ao agronegócio? E lembrar que o rio Paraopeba, o rio das Velhas já foram navegáveis...

Não precisamos ir tão longe. Em nossa região, os pequenos fazendeiros estão sofrendo com a falta de água em suas fazendas. Acredito que uns setenta por cento das minas d’água em nossa região já secaram. A lagoa do Chapadão tem um terço de sua água. E a represa do Quebranzol deve estar com uns vinte e cinco por cento de sua vazão. No máximo.

Acredito que o governo, dentro de poucos anos, não terá outra saída a não ser proibir por alguns anos, ou reduzir drasticamente a retirada de água do subsolo em todo o país. Além, é claro, de medidas mais simples para proteger as nascentes e evitar o assoreamento do leito do córregos e dos rios. 

Só assim, poderemos ter a certeza de que as novas gerações terão água ainda que não seja em abundância. 


*Ivan Batista da Silva é diretor da Escola Atenas e colaborador da Rede Hoje


 

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