Revisitando o passado... Irene


Por Hilda Guimarães
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Os novos vizinhos compraram a casa da rua Pinto Dias, travessa da Coronel Rabelo.
A caminho da escola ou da Igreja de São Francisco  podíamos ver o movimento das pessoas na cozinha e o jirau de lavar a louça.
 
A casa era de Dona Narciza. Ali viera com seus filhos homens e a caçula Irene.
 
Eu as via nas missas do domingo. Dona Narciza com seu vestido azul anil brilhoso, cabelos com permanente nas pontas e uma tiara discreta que, ao prender e segurar os cabelos repartidos de lado,  escondia indiscretas raízes brancas.
Ela fechava os olhos e mexia os lábios enquanto rezava, mas permanecia segurando a mesma conta do terço durante todo o tempo da comprida oração. ..
Já Irene vestia um discreto verde-água sempre que ia à missa. O tecido era de uma seda encorpada que mostrava a trama. Era o seu vestido de "ver Deus", dizia sorrindo.
Tinha cabelos louro-escuros, repicados e repartidos ao meio. Eles emolduravam seu rosto angelical onde o riso mostrava dentes limpinhos, perfeitos senão pelo canino direito um pouco avançado.
- Ele queria 'encavalar', dizia.
 
Os olhos da Irene eram idênticos aos da mãe: castanhos esverdeados. Mas como brilhavam no sorriso ou nas  lágrimas escondidas.
 
Eu não entendia como as mãos da Irene eram tão aveludadas se cabia a ela, sozinha, oi varrer a casa e o quintal, arear as panelas de ferro que o fogão caipira gostava de queimar.
Escolhia a bucha e a areia que os meninos pobres do "Patrimônio" vendiam para ajudar nas despesas daquelas famílias .
 
Tão bonita, de corpinho perfeito, tão diligente nos estudos - sempre o primeiro lugar da classe -  e no trabalho em casa, era a companheira inseparável da mãe. Recebia os cuidados e carinhos dos irmãos que se interessavam pelo que fizera, com quem falara, essas coisas.
 
Ela não ia ao Grupo Escolar comigo e meus irmãos. Também só ia à minha casa no máximo durante uma hora, depois de deixar as obrigações "em ordem". Essa excessão era por conta de nossa amizade.
 
Eu a esperava todas as tardes. Brincávamos e sonhávamos os mesmos sonhos.
Reclamações, discordâncias com nossas mães ou irmãos ou ainda contar dos presentes e carinhos que recebíamos deles. Ou não!
 
Olhávamos os figurinos de modas da minha mãe (ou os que ela trazia emprestados pela vizinha D. Olga, costureira da alta sociedade, filha de D.Marieta).
Sentavámos no alpendre e ao folhear cada página tínhamos que por a mão na figura escolhida como a mais bonita . Eram muitas páginas com  vestidos, sapatos, casacos, interiores de casas  ou lugares. Uma disputa entre os  "- É meu!" ou "- É minha!" que contávamos ao final. Aquela que conseguisse bloquear maior número era a vencedora. Irene me vencia na maioria das vezes porque era mais espertinha.
Depois, falar do sonho com o futuro:  namorados, casamentos, filhos  e, principalmente, profissão.
Eu estudaria medicina como minha mãe sempre me sugeria.
Irene ia terminar o primário e não sabia mesmo o que queria seguir.
 
- Nem você sabe...Sua mãe quer que você seja médica. E você quer?
perguntava com a vozinha doce, pausada e baixa, mas firme.
- Já eu, vou conhecer o meu namorado, que vai ser parecido com o meu pai. Vou me casar, ter uma filhinha...Não. Acho que duas. Ser única filha é ruim demais.
 
À cada semana, durante a missa, eu procurava encontrar um garoto tão bonito e tão responsável para namorar a Irene.Eu fazia parte do coral da Igreja e tinha uma visão melhor, lá de cima, do Coro.
Ela não aprovava nenhum. Nem o sacristão que era bem conceituado no Grupo João Beraldo e que seu pai o levava de carro.
- Mas o Mauro me leva de bicicleta!
Mauro era o seu irmão menos casmurro e muito carinhoso. Foi ele que escolheu sozinho o brinquinho de ouro que ela usava: pétalas de ouro circundavam um rubi lapidado.
- Você sabe o que é lapidado?
 
Eu sabia. O Seu Durval Barbosa vendia jóias e quando ia preparar o mostruário, sua filha Gislene me chamava e ficávamos em volta, à espreita. Ele nos ensinava tudo sobre jóias.
- Mulher tem que aprender a escolher.
 
Irene sabia tudo. Já tinha até ido com D. Narciza  na Relojoaria do  Seu Juca  do Emídio.
 
Um dia nos mudamos dali para a Avenida Rui Barbosa.
Nossa despedida foi festiva porque Irene ficou feliz com nosso progresso. Ela também se mudaria. Iriam para Patos de Minas, onde seus irmãos montariam mais uma fábrica de móveis.
 
Depois não a vi mais, no entanto meu tio me trazia notícias dela.
 
Muito tempo depois meu tio me disse que Irene voltara a morar em Patrocínio e era sua vizinha "de muro". Disse-me que ela estava muito gorda, não estava "com juízo normal" , vivia fechada em casa sob cuidados da mãe. Que se casara, tinha filhos mas "não fora feliz".
 
Eu pensava voltar a Patrocínio literalmente "para ver Irene rir". Mandava meus recadinhos "Para Irene" e, de volta, meu tio repetia sempre:
- Não "tem" resposta. Eu falo de você e ela "dá uma risadinha" e põe os olhos lá longe.
 
Soube mais tarde que ela "não estava vivendo neste mundo" e interpretei como se ela tivesse morrido. Passei a pedir por ela, juntamente com as orações aos meus mortos.
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No Natal passado, a matéria de Mônica Othero em Patrocínio - que eu vi,  apelava para os presentes desejados pelos internos do asilo. Surpresa por ver o nome da Irene e, mais ainda, pela informação do presente desejado:
 "Qualquer coisa". Soube que lhe fora atribuído pelas solícitas cuidadoras, porque a Irene mesmo, a Irene de verdade desejaria um presentinho determinado, até mesmo um caderninho  de receitas... mas essa já não mora naquele corpo que se mantém vivo.
 
Dilany Narciso, que visita regularmente o Asilo, me falou da Irene como interna,  da sua aparência e do mesmo "olhar lá longe" que meu tio descrevera.
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Hoje a minha irmã me encaminhou uma foto. Sem palavras. E eu finalmente pude rever a Irene,  linda  na sua versão 'seventy', bem cuidada mas com o olhar vazio.
Reparei suas mãos pequenas,  percebi o veludo que se manteve e pude revisitar a delicada beleza de seu rosto.
E senti uma saudade danada do seu riso que seu olhar busca " lá longe". 
E segui, noite adentro, buscando as boas lembranças, afastando questões "de ordem sobre o espetáculo da vida", e agradecendo a atenção de minha irmã, aos amigos que a vida me premiou e que compartilham comigo sua história especial.
 
Deus abencoe você, querida Irene!
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