COLUNA DO IVAN. Drummond e a crítica à sua poesia

Ivan Batista da Silva*

(Foto:obviousmag.org/archives)

drummond

Ninguém tem dúvida de que Carlos Drummond de Andrade foi um grande poeta. Coloca-se entre os melhores poetas da Língua Portuguesa ao lado de Camões, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Castilho, Cecília , Mário de Sá, Bocage e tantos outros. Drummond foi, sem dúvida, o maior poeta brasileiro do século XX. Morreu idolatrado.

Sua obra é extensa. Publicou muitos livros tantos de crônicas como de poesia, mas sobressaiu pela sua obra poética. Sua poesia é profunda, principalmente a de caráter social. São poesia que sempre figurarão nas melhores ontologias. Faço ressalva a seu livro “Amor Natural” que, na minha opinião, não deveria ter sido publicado. Alias, foi publicado após a morte do escritor que certamente não via necessidade de sua publicação. Destoa do conjunto de sua obra e, por mais que a crítica o coloca como uma visão estética disto ou daquilo, como poesia erótica, não passa de poesia chula, vulgar. Com isto, Drummond, excelente poeta, corre o risco de se popularizar pelo lado ruim de sua obra, como aconteceu com Bocage.

Mas Drummond tornou-se um mito em nossa literatura e os mitos são intocáveis. Poeta original, soube abordar a dimensão do humano, a eterna dúvida sobre a existência. Muitas vezes não encontrando respostas exprimia seu pensamento através da sátira, do humor, tornando melhor ainda sua poesia. Falta-nos, no entanto, ainda um estudo para mostrar a influência de correntes filosóficas, sociológicas ou mesmo de outros autores sobre a poesia de Drummond, como o fez Agripino Grieco com a obra de Machado de Assis. Afinal, o gênio não se cria do nada.

A fama, no entanto, veio mais tarde, bem mais tarde. No início de sua carreira, quando o Modernismo ainda não era bem compreendido, foi muito criticado. Ao lançar, seu primeiro livro intitulado “Alguma Poesia”, um crítico escreveu: “o título não é exato, pois no livro não há nenhuma poesia”.

Era o início do Modernismo que rompera com todos os padrões da poesia e da arte. O verso livre custou a ter aceitação. O que deu mesmo o que falar foi seu poema “No meio do Caminho”, publicado na revista mineira intitulada “ A REVISTA”, criada, em Belo-Horizonte, pelo próprio Drummond, Abgar Renault e outros poetas em 1925.

Eis a poesia:

No meio do caminho tinha um pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

Tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra.

drummond-pedra

A imprensa de Belo-Horizonte, onde morava, caiu de cima. Foram tantas as críticas que o próprio Drummond , mais tarde, as reuniu em um livro de 194 páginas intitulado “Uma pedra no Caminho”

Vejamos alguma das criticas que surgiram à época, principalmente em Belo-Horizonte:

1-“O Sr. Carlos Drummond é difícil. Por mais que esprema seu cérebro não sai nada. Vê uma pedra no caminho – coisa que todo dia sucede a muita gente – (principalmente agora que as ruas da cidade andam em conserto) e fica repetindo igual papagaio: TINHA UMA PEDRA NO MEIO DO CAMINHO. Homem!. E não houve uma alma caridosa que pegasse nessa pedra e lhe esborrachasse a cabeça com ela.”(Gondim da Fonseca)

2-Hoje não se rima. Um cabra vai pela rua, tropeça por exemplo numa casca de banana, papagueia a coisa umas quatro ou cinco vezes e pronto! Está feito o poema:

Eu tropecei agora numa casa de banana

Numa casa de banana eu tropecei

Numa casca de banana eu tropecei agora(...).

3. O ultraísta Drummond de Andrade, poeta perereca, sombra egressa do cemitério de Sabará, que vaga, diariamente, na casa dos cavalos marinhos de Cândido Portinari(...)

4. A poesia modernista é um artifício idiota, que o senso comum despreza.

5 Mas que diabo de pedra tão importante seria essa, para merecer as honras de um poema? Cascalho britado em São Diogo, ou gema preciosa das terras do Sr. Benedito Valadares? De onde afinal seria a pedra que entupiu o caminho do poeta?

6- Esta poesia mostra “uma obra de afirmação perene do que seria Carlos Drummond, se as pedras do caminho não teimassem em fazê-lo apenas um tímido e vacilante, homem de circunstâncias dominantes, carregado pelo vento mais forte, como intérprete fiel de sua classe”.

7-...desde que vimos o poeta atrapalhado com a célebre “Pedra no Caminho”, achamos que o poeta ainda terá que caminhar , terá que dar muita topada em pedra antes de conseguir se nivelar ao melhores poetas.

8. Em matéria de poesia, longe de avançarmos, voltamos à idade de pedra.(Osvaldo Orico)

9-Engenheiros, pedreiros, artífices vários, proprietários de pedreiras do Estado do Rio, essa gente toda tem telefonado para o Sr Carlos Drummond de Andrade. A questão da pedra no Brasil é quase uma questão de petróleo. O Sr. Drummond tem recebido várias propostas, principalmente de cavalheiros que são contra o cimento armado, contra o asfalto e argila seca. (Joel Silveira)

10-Este(Carlos Drummond) ficou célebre, nem mais nem menos, com um só verso – aquele verso anelídeo que saiu assim como se fosse uma minhoca partida em pedaços para parecer que era mais de uma.(Floriano de Lemos)

11. Que é isso? É poesia mesmo ou é legítima bobagem como a ‘pedra no meio do caminho” do Sr. Drummond de Andrade?(Cavaradossi).

12.. Também eu não compreendo, e creio que muita gente, a tal história da “pedra no Caminho”.Diabo! Afinal de contas que é isso? Versos? Não, não pode ser. Deve ser pilhéria do sr. Carlos Drummond. Decididamente é pilhéria.

 

Moral da História: o caminho da fama não é fácil. Tem de levar muita pedrada até chegar lá. 


 *Ivan Batista da Silva é diretor do Colégio Atenas em Patrocínio, MG, e colaborador da Rede Hoje. 

Imagem de ilustração retirado do site: "Poesia Infantil"


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