COLUNA DO IVAN. Mãos no Rosto

por IVAN BATISTA DA SILVA*


A notícia chegou no meio da tarde. Aí foi aquela confusão própria destes momentos: O que que foi, como isto aconteceu, onde, tinha gente por perto? Um monte de perguntas incapazes de serem respondidas . O telefonema foi lacônico e devido à distância não se tinha muita informação. Alguém lembrou que era preciso de algumas pessoas da família estarem juntas nos momentos seguintes. Quem vai, com que carro, que horas sai? Sei que saímos tarde e já, à noite, dentro de Uberlândia, procurava a saída para a rodovia, sem ligação com o anel rodoviário. Pergunta em um boteco, pergunta em outro, pergunta a pessoas ainda na rua, a dificuldade foi grande até achar a rodovia.

Viajava ao léu, no breu da noite, por estrada desconhecida, sem saber a hora de chegar. De repente, sinto o acelerador frouxo, o cabo se soltando, pensei meu Deus do Céu vamos ficar na estrada. O carro não rendia, pouca velocidade nas subidas. Enfim, depois de uma curva, avisto um posto a uns três quilômetros de distância. A esta hora da noite, não tinha mecânico, nem mesmo um borracheiro. O frentista foi atencioso, arranjou um alicate, ajustou o cabo, mas não ficou um serviço muito bom não, disse ele. Daqui para frente não tem mais posto não, vai com cuidado.

Viajava devagar para não forçar muito o cabo do acelerador, sem saber a hora de chegar. No ermo da noite, nenhum carro trafegando na rodovia. Mesmo se tivesse, acredito que traria mais medo que segurança àquelas horas. De repente o asfalto fica invisível achei que fosse neblina, mas era fumaça da queima da cana, dificultando a leitura das placas , única orientação para achar a saída para outra rodovia. Placas ruins cobertas pelo mato, estrada sem acostamento, cheia de folhas de cana. parecia que ia dar em lugar nenhum.

Enfim, chegamos. Como achar um velório numa cidade pequena de madrugada? Roda para um lado, para outro, sem viva alma na rua. Quem sabe a gente encontra algum guarda nas casas? Postos de gasolina tinham, mas todos fechados. De repente um carro parado na rua, o jeito foi parar também. Eram pessoas também chegando para o velório.

Amanheceu, o traslado do morto chegou e pouco a pouco as pessoas foram chegando, um ajuntamento de gente. Um burburinho, ninguém se arrisca a falar alto, com medo de se ver envolvida na situação. A primeira mulher do morto e a segunda mulher do morto se revezavam ao lado caixão, nunca ficavam as duas juntas. Uma criança de mais ou menos cinco anos se aproxima parecendo não entender muito bem a situação. A irmã do morto aproxima-se do caixão e diz de forma enigmática dirigindo-se ao morto: pois é, meu irmão, bem que eu falei com você, mas você quis assim. É estranho estar em um velório onde não se conhece ninguém. A gente só conhecia a segunda mulher do morto. Dentro do velório um grupinho aqui, outro ali em cochichos com o olhar espantado. Mais próximo do morto, outro grupinho em conversa miúda, fisionomia séria, pensei devem ser os parentes dele. O clima ficou tenso depois que a irmã do morto disse que ele quis assim.

Do lado de fora, havia uma movimentação meio estranha de carros, muitos carros passando na rua, percebi que eles iam e voltavam. Algumas pessoas da cidade também perceberam isto. Uma pessoa me disse muito carro passando aqui. Tá muito estranho. Havia muitas pessoas também do lado de fora, mas por não ser da cidade, não sabia quem eram, se todas eram da cidade. Ali era a terra natal do morto e não a cidade onde ele tinha morado.

Uns minutos antes do enterro, vi um carrão preto chegar e estacionar no espaço entre a rua e a calçada ao lado da funerária. O carro chamava a atenção de todo mundo, mas o motorista permaneceu discreto lá dentro, com a frente para a calçada. Era um carro bonito, lustroso, com um motorista de terno escuro, camisa branca, gravata escura, pensei até que fosse o carro funerário, mas não era não, pois a funerária ficava em frente ao cemitério.

Muita gente na calçada e espalhadas pela rua. Eu estava ao lado do carro a certa distância e, de modo discreto, olhava para aquele motorista magro muito magro, cara chupada, pele branca, macerada que até parecia um agente funerário saído de filme de terror. De repente, vi quando ele, dentro do carro, de forma teatral, colocou a mão direita espalmada na face direita e assim permaneceu algum tempo. Vi, então, na calçada, à direita do carro, um homem alto, corpolento, com cara de guarda-costa, achei até que fosse polícia secreta, de camisa polo, preta, colocar também a mão no rosto do lado direito, olhando discretamente para o motorista. Depois, o motorista colocou a mão esquerda na face esquerda e outra pessoa, também corpolenta, repetiu o mesmo gesto do seu lado esquerdo. Passado algum tempo o motorista cobriu o rosto com as duas mãos e alguém a sua frente também cobriu o rosto. Os três homens vestiam-se de modo igual, com roupas discretas, mas facilmente reconhecíveis.

 

Estava confirmado que o morto era realmente a pessoa marcada para morrer.

 


*Ivan Batista da Silva é diretor da Escola Atenas e colaborador da Rede Hoje