Emoção que cria jogadas e transborda pelos olhos

Jogadores da seleção brasileira foram alvos de críticas por "choro antes da hora"

NEYMAR CHORO

Neymar não segurou as lágrimas durante a tensão do jogo contra o Chile
 
Pressão, responsabilidade, o momento de entrar para a história ou eternizar-se como vilão. O drama brasileiro diante do Chile, logo nas oitavas de final, mostra o quão cruel pode ser disputar uma Copa do Mundo, em casa, para os seres humanos que formam a seleção. Seja na hora do Hino Nacional, após um gol desejado, ou no final do jogo, tem sido comum ver jogadores caírem no choro, como aconteceu na dramática classificação do Brasil para as quartas de final, diante do Chile.


Para a professora do curso de psicologia da Puc-Minas Isabela Saraiva de Queiroz, esses momentos de catarse não são prejudiciais. “O futebol, definitivamente, não é um esporte apenas objetivo, são muitas as variáveis que interferem no resultado e a emotividade pode ser favorável, principalmente, se estiver relacionada à solidariedade e ao espírito de equipe” afirmou.
Os jogadores parecem concordar com a análise da psicóloga. “Chorei bastante, por tudo o que vem na cabeça. Me preparei muito para isso, sonhei desde pequeno. Foi pela emoção, mas o choro foi de alegria”, explicou Neymar, depois da partida contra o Chile.

Os sentimentos transbordados em lágrimas dos jogadores, porém, geraram críticas, como se estivesse faltando controle emocional à seleção canarinho.

Mas a delegada Renata Oliveira, da 2ª Delegacia de Contagem, discorda dessa tese. Mesmo tendo que ter muito controle no seu cotidiano profissional, ela diz que, se estivesse em campo, como os jogadores, choraria também. “No caso deles, eu não teria conseguido segurar. Não esperaria mais controle emocional deles. Depois do jogo, a adrenalina baixa e a emoção aparece”, analisa a policial.

Para o médico da seleção brasileira, José Luiz Runco, tudo isso faz parte do crescimento. “Um jogo desse dá uma maturidade muito grande, o que é muito interessante”, explicou.

O certo é que os jogadores estão unidos e solidarizados. O meia Willian, que perdeu o primeiro pênalti brasileiro, recebeu o apoio de David Luiz. “Na hora que ele (Willian) perdeu, eu sabia o que ele estava sentindo e lhe disse que ‘seu momento de brilhar na Copa não é esse, ainda vai acontecer’”, relembrou o zagueiro. Diante de tanta tensão, os jogadores garantem que não pensaram no pior. “Sempre estivemos confiantes”, contou Willian.

Crítica reflete uma visão clássica de masculinidade, diz psicóloga

Desde o jogo entre Brasil e México, quando Neymar verteu lágrimas, emocionado, durante a execução do Hino Nacional, algumas críticas apareceram. Ex-jogador e hoje blogueiro do site Uol, Neto publicou, após o jogo citado, um texto intitulado “Não vale chorar antes da hora!!!”, nele afirmou: “Na minha visão nosso camisa 10 está apresentando um certo grau de instabilidade emocional”.

Essa crítica, entretanto, pode ser um reflexo da clássica afirmação que “homens não devem chorar”. “A imagem do jogador de futebol como macho, e do próprio futebol como esporte de machos, é muito forte. Organiza o modo como são transmitidos os ideais de virilidade. Quase todos os meninos ganham uma bola do papai. E na Copa do Mundo estão vendo seus ídolos chorando diante de um adversário. Como um pai, daqueles que acham que menino não chora, vai explicar isso para o filho?”, explica a psicóloga social e professora da PUC-Minas Isabela Saraiva de Queiroz.

Segundo Isabela, esse temor do choro também vem de uma certa noção de descontrole, ligada à demonstração de sentimentos. “O choro é visto como algo que não pôde ser contornado pela razão. No mundo da racionalidade e da objetividade, o choro é uma ameaça, algo irrompeu, descontroladamente”.

A psicóloga ainda recomenda ajuda profissional aos jogadores da seleção. “Alguns deles, como o Julio Cesar, precisam de atendimento psicológico. Acho que tem muita coisa ali para ser elaborada, muito choro pra chorar. Ele me pareceu muito magoado, e precisa de espaço para elaborar esses sentimentos, para isso não aparecer na hora do jogo” conclui. (LP)

(O Tempo)