MÍDIA. Para Kotscho, Bolsonaro prova que a Globo aceita qualquer um, menos Lula, Ciro e Haddad

-kotschoPara um dos mais importantes jornalistas do país, o blogueiro Ricardo Kotscho, , editor do “Balaio do Kotscho”, a diferença de tratamento que a TV Globo deu aos dois primeiros candidatos à presidência do Brasil que entrevistou, ficou clara na noite de ontem com Jair Bolsonaro, depois de entrevistar Ciro Gomes. Para ele, a Rede Globo aceita qualquer um, menos Ciro Gomes, Lula e Haddad.

 

Primeiro o blogueiro a analisa a entrevista de Ciro Gomes:

Era para ser a primeira entrevista da série com os presidenciáveis no Jornal Nacional, na noite de segunda-feira, mas virou um debate entre Ciro Gomes e William Bonner.

 

Como nos debates entre candidatos, Bonner tinha um roteiro de perguntas para fustigar o concorrente como se ele também fosse um presidenciável.

 

Na verdade, não eram perguntas, mas interpelações, em que o ancora nem esperava as respostas, e já cortava aquele que deveria ser o entrevistado.

 

Se fosse um debate entre candidatos, Bonner seria advertido pelo moderador, mas Renata Vasconcelos não fez este papel.

 

Ao contrário, os dois apresentadores se alternavam para não deixar Ciro respirar.

 

Falaram mais do que o candidato, mas Ciro não caiu na arapuca armada pela produção do programa.

 

Manteve-se sereno, afirmativo e sorridente o tempo todo.

 

Em outros tempos, pelo que conheço dele, teria partido para cima de Bonner no tapa e o chamado para brigar na rua.

 

Tentaram jogar Ciro contra Carlos Lupi, o presidente do seu partido, Kátia Abreu, a sua vice e, claro, o ex-presidente Lula.

 

Ciro defendeu Lupi e Kátia, e desmontou os dois apresentadores ao falar de Lula, sem que o conseguissem interromper:

 

'Lula não é satanás como a imprensa pensa, e não é um santo como parte do PT acha. Eu conheço Lula há 30 anos, tive a honra de trabalhar com ele, e ele fez muita coisa boa para o Brasil. Eu faço essa menção: Lula foi um bom presidente pro Brasil e o povo sabe disso. Não devemos comemorar o fato de o maior líder político do Brasil estar preso'.

 

Como o substituto de Lula, Fernando Haddad, não foi convidado, certamente esta foi a primeira e última vez que alguém defendeu Lula no Jornal Nacional.

 

Ciro ficou no ar por longos 27 minutos, uma enormidade de tempo para quem só vai ter 38 segundos no programa eleitoral do PDT, e aproveitou para apresentar sua plataforma de governo, quando o deixavam falar.

 

Defendeu a renegociação das dívidas dos mais de 60 milhões de brasileiros inadimplentes no Serviço de Proteção ao Crédito, com o projeto já batizado de “Nome Limpo”, a reindustrialização do país e explicou didaticamente como pretende fazer o Brasil voltar a crescer.

 

Com certeza, Ciro somou pontos ao final do debate com os jornalistas globais e sua participação foi comemorada nas redes sociais como se tivesse acabado de ganhar por 7 a 1.

 

'Arrogante, prepotente e mal educado' foram algumas das expressões usadas pelos internautas ao comentar a acusação de William Bonner de que o presidente do PDT é réu num processo sobre improbidade administrativa.

 

Foi aí que surgiu a maior polêmica quando Ciro defendeu Carlos Lupi com a veemência habitual:

 

Lupi tem a minha confiança cega, absolutamente cega, é um homem de bem. Réu, com certeza, ele não é”.

 

Bonner esperou a entrevista acabar para voltar ao assunto depois do intervalo, declamando o número do processo aberto para investigar Lupi, por ter voado de carona no avião de uma organização que mantinha convênio com o Ministério do Trabalho, quando ele era ministro.

 

Não tem jeito: a última palavra sempre tem que ser a da Globo, como já tinha acontecido no final da entrevista com Jair Bolsonaro, semana passada, na Globo News.

 

E nesta terça-feira é o dia de Bolsonaro debater na bancada do Jornal Nacional.

 

Resta saber como se comportarão os jornalistas quando chegar a vez de entrevistar os candidatos apoiados pela emissora (Geraldo Alckmin e Marina Silva, pela ordem).”

 

COM BOLSONARO FOI DIFERENTE. No mesmo blog, hoje, Kotscho diz que Bolsonaro prova que Globo aceita qualquer um, menos Ciro Gomes, Lula e Hadad. 

 

Jair Bolsonaro não é o candidato preferencial da Globo, sabemos todos, mas o Jornal Nacional desta terça-feira deixou bem clara a posição dos donos da principal TV do país: eles só não aceitam a vitória de Ciro Gomes ou do candidato do PT, seja Lula ou Haddad. Qualquer outro serve aos seus interesses.

 

Ao contrário do que aconteceu com Ciro na noite anterior, desta vez os inquisidores do JN estavam mais mansos, meio perdidos, gaguejantes, e acabaram levando um baile do ex-capitão do Exército, que ficou com a primeira e a última palavra.

 

Política e interesses da empresa à parte, William Bonner e Renata Vasconcelos mostraram que podem ser bons apresentadores de telejornal, mas são péssimos entrevistadores.

 

Não têm nem cacoete de repórter, aquele cara chato que pergunta o que o entrevistado terá dificuldades para responder porque conhece bem a a sua história e as suas contradições.

 

No mesmo dia em que Bolsonaro estava sendo julgado por dois crimes no Supremo Tribunal Federal, racismo e homofobia, que podem tirá-lo da campanha, os dois nem tocaram no assunto e se limitaram a repetir perguntas genéricas feitas antes na sabatina da Globo News, alguns dias atrás.

 

E Bolsonaro deu as mesmas respostas, deitou e rolou em cima deles, retrucando com os pagamentos que recebem como pessoa jurídica, pagando menos impostos, com a diferença salarial entre o homem e a mulher da bancada, e perguntou de novo, lembrando o apoio da Globo à ditadura militar, se Roberto Marinho era um ditador ou um democrata.

 

Em nenhum momento, os ancoras do JN conseguiram revelar a maior fraqueza de Bolsonaro, que nada tem a ver com política ou ideologia: a sua absoluta incapacidade de apresentar qualquer proposta viável para o país, um minimo programa de governo, juntar duas frases com sentido, alguma capacidade para enfrentar a enorme crise em que o país afunda.

 

Ficaram no varejo, insistindo nas incoerências do candidato, que quer ser o novo na política e representa a política oligárquica e familiar mais antiga, com 27 anos de parlamento, sem nunca ter apresentado um único projeto útil para o país.

 

É incrível como a Globo, com o poder que tem, e contando com alguns dos melhores jornalistas do país, não consiga fazer uma entrevista de qualidade de 25 minutos, capaz de oferecer uma manchete para os jornais do dia seguinte.

 

Só não vou dizer que perdi meu tempo, porque este é meu ofício, mas infelizmente fiquei ainda mais convencido da pobreza do jornalismo e da política no meu país.

 

Se Ciro Gomes ganhou o debate da véspera por 7 a 1, como vimos nas redes sociais, este com Bolsonaro ficou num melancólico 0 a 0, em que os dois times perderam pontos e não ajudaram em nada o eleitor indeciso a decidir seu voto.

 

Quem era Bolsonaro continuou sendo, quem era contra continuou contra, e os indecisos continuaram indecisos.

 

É assim que caminhamos para a mais inacreditável e patética eleição da história da República, faltando apenas as entrevistas com Geraldo Alckmin e Marina Silva, os dois preferidos da Globo para derrotar Ciro e o candidato do PT, que eles se recusam a ouvir.

 

Que pobreza, que fim de feira, que desperdício de tempo e de esperança!

 

Este é o retrato do que sobrou do Brasil após a Lava Jato e o golpe de 2016: um país em escombros, uma massa falida de líderes e um deserto de ideias, onde os idiotas ganharam espaço e o resto da sociedade jogou a toalha.

 

E vida que segue.”


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