
(Caderno de Anotações de Velner Faria)
Nem todo caso me procura. Alguns esperam. Ficam quietos até que o tempo seja a única coisa capaz de entregá-los.
O caminhão tombou na entrada de Quebranzol numa terça-feira sem importância. Rodovia estadual, curva larga, visibilidade limpa demais para justificar o erro. A Polícia Rodoviária chegou primeiro, como manda o manual. Disseram “acidente”, porque acidentes facilitam o dia.
Caminhão carregado de arroz.
Motorista morto.
Nada além disso.
Até abrirem a carga.
Recebi a ligação ainda cedo.
— Delegado Velner Faria? A ocorrência não é da sua área… mas o senhor vai querer ver isso.
O caminhão estava de lado como um corpo grande demais para o acostamento. Sacos de arroz rasgados, grãos espalhados na lama. O motorista, Eraldo Caixa, ainda preso ao cinto. Morte imediata.
— Alguns sacos estavam pesados demais — disse o sargento. — Arroz não pesa assim.
Debaixo da primeira camada, cem quilos de cocaína, embalados com método, sem improviso.
A perícia não demorou.
— Freios sabotados — disse Mara. — Isso foi feito antes da viagem.
A transportadora não existia. O destinatário, um mercado fechado havia anos. Tudo falso, exceto o morto.
Agenor tinha ficha limpa. Rota regular. Vida simples demais para o que carregava.
— Ele sabia? — perguntaram.
— Descobriu — respondi. — E foi o suficiente.
Soube depois da ligação curta para a esposa:
“Tem coisa errada nesse frete.”
Três meses se passaram.
A droga foi apreendida. O caminhão virou estatística. Quebranzol voltou ao seu silêncio funcional. Mas ninguém tentou recuperar a carga. Nenhuma pressão, nenhuma ameaça.
Isso não existe no tráfico.
Cem quilos não se perdem assim.
Saí do inquérito formal e comecei a seguir o dinheiro — sempre mais honesto que as pessoas.
Os cortes nos freios indicavam alguém com acesso ao pátio da transportadora. Não um estranho. Um sócio. Alguém de dentro.
Os registros da empresa falsa apontavam para Nova Aurora, a maior cidade da região. Aluguéis pagos à vista. Escritórios que nunca funcionaram. Imóveis comprados por interpostas pessoas. Lavagem cuidadosa, contínua, quase elegante.
O nome que aparecia sempre no centro dessas operações era Renato Olviedo. Nunca assinava contratos. Nunca aparecia em fotos. Mas todos os pagamentos orbitavam ao redor dele.
Renato não era dono da carga — era o operador. O homem que mantinha a rota limpa, os caminhões circulando, os fiscais previsíveis.
E foi justamente isso que me fez parar.
Renato ganhava demais para perder cem quilos de cocaína por vontade própria.
Traficante aceita risco.
Não aceita prejuízo deliberado.
O erro não era o acidente.
Era a autoria.
Voltei aos depósitos, aos pátios, aos nomes esquecidos. Foi aí que encontrei Celso Berner — sócio oculto, técnico em mecânica, responsável pela frota. Nada aparecia em seu nome além de um apartamento modesto.
Mas, três semanas após o acidente, Celso quitou dois imóveis em Nova Aurora.
À vista.
Em dinheiro fracionado.
Celso não queria chamar atenção.
Queria substituir.
A conclusão veio simples demais para ser confortável:
Celso sabotou o caminhão para provocar a apreensão da carga, não para roubá-la. Sabia que a perda colocaria Renato sob suspeita, pressão e desconfiança interna. No tráfico, perder produto é pior que ser preso — é ser considerado fraco.
Agenor percebeu algo errado. Pediu mudança de rota. Isso não podia acontecer. Se chegasse ao destino, a sabotagem seria descoberta antes do acidente.
Por isso o caminhão caiu onde caiu.
Renato não morreu.
Foi descartado.
Quando levei o caso adiante, Renato já estava fora do jogo. Congelaram seus contatos. Cortaram suas rotas. Celso assumira silenciosamente.
O mandado veio tarde. Celso foi preso por lavagem de dinheiro, não por homicídio. O acidente ficou arquivado como consequência.
No relatório final, escrevi apenas:
A carga não caiu por erro.
Caiu por traição.
E o motorista pagou por enxergar cedo demais.
Fechei o caso sabendo que não havia justiça completa ali.
Porque no crime organizado moderno, ninguém perde cem quilos por acidente —
mas alguns homens perdem tudo porque confiaram na pessoa errada.
Nota Editorial da Série
O Peso do Arroz integra Cadernos de Quebranzol – Memórias de um Delegado de Polícia, série de contos policiais narrados por Velner Faria, personagem fictício criado no romance Operação Borboleta.





