
Luiz Antônio Costa
A música Mulher, de Erasmo Carlos, inspira uma reflexão que vai além da melodia. Ela fala de reconhecimento, algo que muitas vezes chega tarde ou chega pouco. Ao longo das últimas décadas, as mulheres ampliaram sua presença em praticamente todos os espaços da sociedade. Estão nas empresas, nas escolas, nas universidades, nas academias, nos hospitais, nos laboratórios e também nas ruas, disputando espaço, voz e respeito.
Mas essa caminhada não começou agora. Já há muito tempo as mulheres deixaram de estar restritas apenas ao ambiente doméstico e passaram a enfrentar a rotina do trabalho fora de casa. Muitas saem cedo para trabalhar, estudam para se qualificar, cuidam da saúde e ainda precisam administrar o tempo entre compromissos profissionais e familiares. Mesmo com tantas responsabilidades, seguem demonstrando disciplina, resistência e capacidade de adaptação diante das exigências do mundo moderno.
Ao mesmo tempo, é impossível ignorar a importância daquelas que permanecem dedicadas ao cuidado da casa e dos filhos. Esse trabalho, muitas vezes invisível, exige organização, paciência e esforço diário. É uma rotina contínua, sem horário fixo, sem descanso definido e quase sempre sem o reconhecimento que merece. Cuidar de uma família é também uma forma de trabalho, uma atividade essencial para o equilíbrio da vida coletiva.
Outro aspecto que atravessa a realidade feminina é o risco permanente da violência. Independentemente da profissão, da classe social ou do lugar onde vivem, muitas mulheres ainda enfrentam agressões físicas, psicológicas ou simbólicas. Em muitos casos, precisam seguir em frente sozinhas, criando filhos, sustentando a casa e reconstruindo a própria vida. Ainda assim, encontram força para continuar.
É verdade que as mulheres conquistaram mais espaço no mundo moderno. Ocupam cargos importantes, lideram projetos, produzem conhecimento e participam das decisões da sociedade. No entanto, essa conquista não aconteceu sem custo. Cada avanço foi resultado de lutas, resistências e enfrentamentos que atravessaram gerações. Tudo o que conquistaram foi na luta, na raça e no jeito feminino de enfrentar os desafios da vida.
Durante muito tempo, inclusive, a própria participação feminina na política foi negada. As mulheres demoraram a ser reconhecidas até mesmo como eleitoras, direito que hoje parece natural, mas que foi conquistado após anos de mobilização e pressão social. Mesmo com avanços, a presença feminina na política ainda enfrenta dificuldades. Atualmente existem leis que determinam cotas mínimas de candidaturas femininas, aprovadas no Congresso Nacional, mas nem todos os partidos políticos respeitam plenamente essas regras ou garantem condições reais de participação.
No Brasil, a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 representou um marco importante para a ampliação dos direitos das mulheres. O texto constitucional trouxe diversos avanços para o mundo feminino, reforçando o princípio da igualdade entre homens e mulheres, ampliando direitos trabalhistas e garantindo maior proteção à dignidade e à cidadania.
Como homem, talvez eu não tenha lugar de fala para descrever completamente essa experiência. Mas é impossível não perceber essa realidade ao olhar para as mulheres que fazem parte da minha própria vida. Penso na minha esposa, na minha filha, nas minhas noras e netas. Lembro da minha mãe, das minhas irmãs, das minhas sobrinhas e das minhas amigas. Todas mulheres valorosas, que enfrentam a vida com coragem e dignidade todos os dias.
No fim das contas, reconhecer essa força talvez seja o primeiro passo para construir uma sociedade mais justa. Porque, por trás de cada história de trabalho, de cuidado ou de superação, existe sempre uma mulher que insistiu em seguir em frente. E essa persistência, silenciosa ou visível, é uma das maiores forças que movem o mundo.
A coluna Dente-de-leão é inspirada na flor que espalha suas sementes ao vento, levando vida e renovação para diferentes lugares. Assim também são os textos da coluna: reflexões e histórias lançadas ao leitor como pequenas sementes de ideia





