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Saudade! Com a palavra… Elza Lima

Sentimos saudades de algumas pessoas, que já se foram, de algumas coisas que fazíamos e não fazemos mais, de alguns lugares que passamos ou moramos, e já não estamos lá por motivos diversos, seguimos a vida, mas, de repente a lembrança está lá, bem viva em nossa cabeça. Parece que foi ontem…

A saudade não bate na porta.
Ela entra devagar, como quem conhece a casa.

Às vezes chega pelo cheiro do café passando cedo, pelo barulho da chuva no telhado ou por uma música antiga tocando distraída em algum lugar. E então, sem aviso, a gente volta no tempo. Não com o corpo, mas com o coração.

Saudade é isso: uma viagem silenciosa.

Tem gente que pensa que saudade é tristeza. Nem sempre. Às vezes ela vem sorrindo. Vem carregando lembranças simples, um abraço demorado, uma conversa na calçada, o jeito que alguém pronunciava nosso nome. Pequenos detalhes que o tempo levou da rotina, mas esqueceu de arrancar da memória.

O curioso é que a saudade transforma tudo. O que antes parecia comum ganha brilho de eternidade. A velha cadeira da varanda vira trono de lembranças. Uma fotografia amarelada passa a guardar universos inteiros. Até o silêncio de quem foi embora continua falando dentro da gente.

Existem saudades que passam. Outras aprendem a morar conosco.

Há quem sinta saudade de pessoas. Há quem sinta de lugares, de fases da vida, de versões de si mesmo que ficaram perdidas pelo caminho. Porque também sentimos falta de quem éramos antes das despedidas.

E talvez crescer seja exatamente isso: colecionar ausências sem deixar de seguir em frente.

A saudade dói, mas também prova que algo valeu a pena. Ninguém sente saudade do que não tocou a alma. Ela é a cicatriz bonita do amor, da amizade, dos dias felizes que passaram rápido demais.

No fim, a saudade é uma forma do coração dizer:
— “Foi importante.”

E depois que ela fala isso, o coração fica quieto por alguns instantes, como se tivesse cumprido sua obrigação. Mas a saudade nunca vai embora de verdade. Ela apenas muda de lugar dentro da gente.

Com o tempo, aprendemos a conviver com ela como quem aprende os hábitos de um velho morador da casa. Há dias em que permanece silenciosa, escondida nos cantos da memória. Em outros, ocupa todos os espaços, abre gavetas antigas, espalha retratos pela sala e nos obriga a revisitar histórias que pensávamos ter esquecido.

É estranho como a vida continua mesmo depois das partidas. Os ônibus passam, as manhãs chegam, as pessoas riem nas ruas. O mundo não para porque alguém foi embora. Mas dentro de nós existe sempre um pequeno relógio parado na hora da despedida.

Talvez seja por isso que algumas lembranças doam tanto: elas nos mostram que o tempo segue em frente sem pedir licença.

Ainda assim, a saudade também amadurece. O que antes era ferida aberta vira lembrança serena. O nome que um dia fez os olhos marejarem passa a trazer um sorriso discreto. A dor perde as pontas afiadas, embora nunca desapareça completamente.

Porque esquecer não é cura.
Às vezes, a verdadeira cura é lembrar sem se destruir.

E então entendemos que certas pessoas nunca voltam, mas permanecem. Moram em frases que repetimos sem perceber, em manias que herdamos, em músicas que evitamos ouvir nas tardes mais vazias. Permanecem nos detalhes invisíveis que formam quem somos.

No fundo, a saudade é amor que aprendeu a sobreviver na ausência.

E talvez seja por isso que ela aparece tão de repente, em dias comuns, sem pedir licença. Apenas para nos lembrar que algumas histórias terminam na vida, mas continuam existindo dentro da alma.

Elza Lima é empresária de educação em São Matheus, ES, escritora e colaboradora semanal da Rede Hoje.

@redehoje
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