
Foto: IA baseada em encontro de folias na Gruta da Serra do Cruzeiro em Patrocínio
Chegando 6 de janeiro, “Dia de Reis”, vou contar uma história que tem a ver com a data.
A lua surgia lenta por trás do chapadão quando Joaquim Bento endireitou a bandeira dos Santos Reis no mastro de madeira. O pano, vencido pelo tempo e pelo sol, guardava marcas de muitos janeiros, mas permanecia inteiro, como se sustentado pela fé de quem o seguia. Era dezembro de 1940. No terreiro da Boa Vista, os homens se ajuntavam em silêncio, esperando a palavra do capitão. Joaquim então falou, com voz firme, cortando a noite fria:
— Se nóis num sai hoje, esse giro num sai mais, não. Estrada tá ruim, mas promessa feita num tem vorta.
Perto do curral, Manuel Chibiu afinava a viola com paciência antiga, como quem conversa com a madeira. Sem erguer os olhos, respondeu, num tom que misturava lembrança e certeza:
— Ruim ela sempre foi, uai. Pió foi no ano da seca, que nem água num achava. E memo assim nóis cantô.
Maria Rosa veio chegando devagar, protegendo a chama do lampião com a mão em concha. Era ela quem guardava a bandeira durante o ano inteiro, como quem guarda um segredo. Aproximou-se de Joaquim e pediu com cuidado:
— Leva cum tento. Tem casa que fecha a porta, mas tem casa que espera. E Reis num passa sem aviso.
Partiram ainda de madrugada. O caminho entre a Boa Vista e o Córrego Feio, naquele tempo, era mais rastro que estrada, cortando o cerrado entre grotas, pedras e capim alto. Em certo ponto, o burro que carregava os instrumentos atolou no barro mole. Antônio Pequeno largou o pandeiro e foi acudir o bicho, bufando de cansaço.
— Desse jeito nóis num sai daqui hoje, não — resmungou.
Manuel retrucou, empurrando junto:
— Para de reclamá e empurra, home. Reclamação num tira bicho do barro.
Quando alcançaram a primeira casa, o céu já clareava por detrás das árvores. Joaquim bateu palmas diante da porteira fechada e esperou. O silêncio demorou, até que uma voz desconfiada respondeu lá de dentro:
— Quem que é?
— É folia de Reis pedindo licença — disse Joaquim. — Nóis veio cantá e cumpri promessa.
A porta se abriu devagar. O dono da casa olhou os homens cobertos de barro, as violas gastas, a bandeira erguida. Falou sem jeito:
— Ocêis me perdoa, mas num tenho quase nada pra oferecê.
Joaquim respondeu manso:
— Num carece, não. A licença já é bença.
Cantaram apertados na sala pequena, desviando dos móveis e das crianças acordadas. No fim, ganharam um pedaço de queijo e um pouco de milho. Manuel amarrou tudo no saco de pano e comentou baixo, como quem faz conta:
— Dá pra segui mais um dia. Reis num deixa fartá.
Antes mesmo do giro começar, tudo já tinha sido combinado. Dias antes, um emissário havia rodado de fazenda em fazenda, perguntando quem podia dar almoço, café da tarde, janta ou um canto pra dormir. Depois voltava e passava tudo ao capitão, que traçava o roteiro. Naquele ano, a chegada à Fazenda São José era certa. O dono, homem de reza antiga, abriu as portas para o almoço ou a janta. No fogão de lenha, a comida tomava forma em panelas grandes: arroz, tutú de feijão de caldo, frango caipira, macarronada, porco na lata, verdura colhida no quintal. A mesa farta era parte da devoção.
Na noite seguinte, já perto do da última parada, a chuva caiu grossa, sem aviso. A folia se apertou num rancho abandonado. Maria Rosa ferveu um café ralo num fogo improvisado. Olhando as sombras dançando na parede, comentou:
— Se num fosse essa folia, cada um já tinha desistido faz tempo.
Joaquim respondeu, olhando a bandeira encostada no canto:
— É ela que segura nóis. Enquanto tiver quem canta e quem escuta, Reis num larga esses caminho.
No último dia do giro, voltaram ao terreiro com os pés inchados e a voz gasta. Havia gente esperando. Joaquim ergueu a bandeira uma última vez e falou antes do canto final:
— Nóis passou por estrada ruim, porta fechada e fome apertada. Mas passô. E enquanto tiver quem lembra desses passo, Santo Reis ainda vai andá por essas banda.
Lá do fundo, Manuel gritou, arrancando risos cansados:
— E amanhã nóis faiz o rotero de Emiril até no Tijuco, se Deus quisé e Santo Reis ajudá.
Esta é uma obra de ficção baseada em fatos reais com licença poética e livre criação. Este conto faz parte do livro inédito Crônicas e Contos do Caminho.





