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A Presença que Ficou | Crônicas e Contos pelo Caminho


Imagem de K_Moser | Pixabay

Luiz Antônio Costa

Todo mundo sabia que ele iria morrer. Ele também sabia. Seu corpo, já fragilizado, revelava a condição humana em sua forma mais vulnerável. Mas o espírito — esse permanecia altivo — apontava para a grandeza de uma alma preparada. Durante quatorze meses enfrentou um câncer pulmonar que o consumia lentamente, até a manhã de 12 de março de 1995 quando respirou pela última vez e, sereno, partiu ao encontro de Deus.

Ficam na memória incontáveis momentos — alegres e difíceis — vividos por nós e por nossas famílias. Poderia relatá-los aqui, mas prefiro recordar a maneira como ele encarou a própria morte, pois é aí que se revela, com mais nitidez, quem ele era.

Tinha uma gargalhada inconfundível e um jeito simples, quase despretensioso. Às vezes demonstrava insegurança — como no início da experiência como repórter de campo na equipe esportiva da Rádio Difusora que o convidei para participar. Chamava-me de “Veio”, apelido carinhoso que traduzia nossa intimidade. Dizia que gostava muito daquilo, mas que era difícil demais. Eu sorria, certo de sua competência. Em outros momentos, surgia firme, generoso, sempre pronto a ajudar — lembrando um mestre paciente que transmite confiança ao discípulo.

Depois do almoço, mantinha o hábito de caminhar até a empresa para se exercitar. Foi numa dessas rotinas que algo mudou. O fôlego já não era o mesmo. Subir e descer a Avenida Faria Pereira tornava-se tarefa árdua. A esposa, Eloisa, percebendo a dificuldade, insistiu para que procurasse um médico. Teimoso como era, resistiu; mas acabou cedendo.

O médico Walter Pereira Nunes, humano e atento, viu da gravidade e sugeriu encaminhamento para Belo Horizonte. Lá, na capital mineira, ouviu de maneira direta e fria: câncer em estágio avançado, sem esperança de cura.

O impacto foi devastador. Aquele homem forte, goleiro nas peladas e torcedor apaixonado do Galo, sentiu-se ruir. Chorou, revoltou-se, tentou buscar saída para o que parecia não ter solução. Aos poucos, entretanto, entregou o destino a Deus e começou a aceitar a realidade — justamente quando balões de oxigênio passaram a ser necessários semanalmente para mantê-lo vivo.

Então emergiu novamente o homem forte: o que confortava os que amava, falava com firmeza sobre a vida eterna e ainda se preocupava com o bem-estar dos outros. Depois de sua partida, a família encontrou cartas que ele escrevera — à esposa Eloisa, aos filhos – Rogério, Raquel e Amanda -, aos irmãos e também a mim.

Em um dos trechos, contemplando a chuva mansa que caía sobre a terra fértil, ele refletia sobre a morte e perguntava se os poderosos acreditavam ser imunes a ela. Criticava a indiferença dos que desprezam os humildes e, resignado, afirmava que a cura mais importante não era a do corpo, mas a da alma. Dizia-se feliz. Louvava a Deus.

Na mensagem deixada para a missa de sétimo dia — ele, católico fervoroso — escreveu palavras de serenidade: agradeceu a convivência, pediu que não chorassem sua ausência e que permanecessem firmes na fé, pois somente Deus é salvação.

Meu compadre — padrinho do meu filho caçula, Luiz Costa Júnior — era mais que amigo: era irmão. Mesmo passados há 31 anos, sua presença continua viva em minha história e na de minha família.

Quando penso nele, vem-me à lembrança a canção “Canção da América”, de Milton Nascimento, eternizada pelo 14 Bis:

Amigo é coisa pra se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção
Que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver seu amigo partir… 

E, se houve lágrimas ao vê-lo partir, também ficou a certeza do reencontro.

Sem lamentos, como ele próprio pediu. Imagino-o dizendo, com sua calma habitual: o que importa é ouvir a voz do coração. Qualquer dia desses, amigo, a gente vai se encontrar.

No final, seu nome permanece como eco de gratidão e exemplo: João Lucas Caldeira, o amigo que ainda trago no Som da Memória.

*-*

Crônica baseada em texto do meu primeiro livro “O Som da Memória”, publicado em 2012.

@redehoje
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