
Luiz Antônio Costa
Nos anos 1960, nos chapadões de cerrado brabo de Patrocínio, uns roceiros miúdos se juntaram à noite na caverna da Serra do Cruzeiro pra fazer simpatia pra chover na região. A seca tava braba. Nunca tinham visto os animais tão magros. Na época não se produzia café e a terra não era corrigida como hoje, quando, com trato e insumo, quase tudo que se planta vinga. Era uma terra amarela. Tinha pequi, araçá, gabiroba, jatobá, essas frutas silvestres. Lavoura, só de subsistência.
Lá dentro da fenda estreita de quartzito, com a boca virada pro vale, Zé Pequeno, Zé João e Eurípedes — que todo mundo chamava de Oripe — mais uns três sujeitos acendiam fogo de lenha seca no fundo da gruta. As chamas tremiam e jogavam sombras danadas nas paredes ásperas. O vento entrava uivando, feito alma penada.
Eles estavam com o coração apertado de medo. Medo da seca que não acabava, medo do Homem da Mala, medo da Noiva Morta e medo até do vento quando ele mudava de rumo. As sombras na parede eram a única verdade que eles conheciam.
— Óia aí, diacho! — gritou Zé Pequeno, cuspindo um jato de fumo no chão de pedra. — O Homi da Mala tá maió que onte! Óia o vurto da mala nas costa dele, parece até que tá cheia de criança. Se a gente tentá plantá mais que mio e feijão miúdo, ele vem de noite, arrasta um de nóis e faz sabão com a gordura da barriga. Ano passado ouvi o choro dele quando a roça queimou toda.
Oripe, pitando um pito de palha e fumo de rolo preto, coçou a barba rala e falou rouco:
— É coisa danada, meu Deus do céu. E óia ali a Noiva Morta — apontou pra sombra da fumaça na pedra —, toda de branco, suja de sangue e terra. Se a gente sai, ela aparece na curva da estrada véia, véu rasgado, chorando pelo noivo que mataro na noite de núpcia. Quem segue ela some pra nunca mais. Mió a gente ficá aqui quetinho, fazê uma queimada no cerrado como nossos pai fazia e criá umas vaca magra que nem nóis.
Zé João era o que falava menos, só observava, meio deslocado. Ficava olhando pro fogo, mas os olhos dele sempre fugiam pra boca da caverna, onde entrava um fiapo de luar. Depois de discutirem até ficarem roucos sobre a vida e a economia que só vinha pra apertar mais ainda o pobre, Zé João se levantou devagar, as pernas duras de tanto ficar sentado na pedra fria.
— Eu vô lá fora vê essa porquera de verdade — disse ele, a voz grossa e baixa.
Zé Pequeno caiu na gargalhada rouca:
— Tá doido, Zé João? Tá querendo que o Homi da Mala te enfie na mala dele? Senta essa bunda aí, sô, dexa de sê besta! Lá fora só tem cerrado torto, casca queimada e chão que não presta pra nada. Aqui dentro a gente sabe o que é real, uai.
Mas Zé João já tinha saído, tropeçando nas raízes expostas, ralando as mãos na pedra. O ar seco da noite bateu na cara dele, cheirando a capim queimado e terra quente. Ele subiu o morro devagar, até chegar no alto, onde ficava o cruzeiro velho de madeira.
Ali em cima, o pessoal fazia a simpatia quando a chuva não vinha. Pegavam baldes d’água, jogavam aos pés do cruzeiro e amarravam um sapo grande com barbante na cruz, pra chamar a chuva. Chamavam o bicho de Dicóque — jeito deles dizer “de cócoras”, por causa da posição do sapo, sempre encolhido, mesmo quando parecia de pé.
Zé João viu os restos da última simpatia: barbante velho, carcaça seca de sapo e uma poça de água suja que já tinha secado fazia tempo.
Ele ficou olhando o chapadão inteiro clareado pela lua. Árvores baixas e tortas, cascas grossas marcadas de queimada velha, pequi, araçá, gabiroba e jatobá espalhados no meio do mato. Passaram a noite. Quando o sol começou a raiar, a luz bateu direto nos olhos dele.
Não tinha Homem da Mala carregando gente pra fazer sabão. Tinha gente com medo, espalhando história pra ninguém mudar nada. Não tinha Noiva Morta vagando na estrada. Tinha vida dura, mas que podia melhorar um pouco: o solo ácido dava pra corrigir com calcário, o cerrado dava pra manejar sem precisar queimar todo ano, o gado podia engordar com pasto melhor. Os técnicos da Acar, que depois virou Emater, já tinham falado disso na feira de Patrocínio, mas quase ninguém ali da caverna queria acreditar.
Zé João ficou um tempo ali, os olhos ardendo, vendo onde um vizinho mais corajoso tinha parado de queimá todo ano e jogado um pouco de adubo: o capim nascia mais verde e o gado até parecia menos magro. Entendeu que as sombras da caverna eram só fumaça, ignorância e medo antigo.
Quando o sol já estava alto, ele voltou cambaleando pra caverna, quase cego, os olhos vermelhos e lacrimejando.
— Zé João! Que cara é essa, homem de Deus? — berrou Oripe. — Tá branco que nem defunto saído da cova! O que foi que te aconteceu, diacho?
Zé João parou no meio da gruta, respirando pesado.
— Cumpade… num é nada disso que a gente pensa. Não tem Homi da Mala pegando gente pra fazê sabão. Não tem Noiva Morta esperando na curva pra levá alma. A gente tá aqui dentro olhando sombra de fogo e achando que é o mundo inteiro. Lá fora o chão dá pra miorá com calcário, como o moço da Acar falô pra nóis. Dá pra plantá coisa mió que esse mío miúdo que nem enche a barriga. O cerrado num é mardição, é terra que a gente pode consertá. Mas tem que oiá pro sol de verdade, não nessas sombras do diabo.
Silêncio pesado caiu dentro da caverna.
Depois Zé Pequeno explodiu:
— Óia o fí da mãe doido! Saiu no cerrado, tomô sol na cabeça e vortô falano merda de cidade grande! Tu tá cego, Zé João? Óia a parede, diacho! O Homi da Mala tá ali grandão hoje, com a mala aberta! Amanhã ele vem te buscá se tu continuá com essa conversa fiada!
Oripe se levantou bravo, dedo sujo de terra apontado na cara dele:
— Tu virou traidô agora, é? Qué que a gente abandone o que nossos avô sempre fez? Queimá, roçá, vivê pobre, mas seguro cum as informação da caverna. Esses agrônomo de Patrocínio só quer tomá nossa terra com papo furado de “miorá o solo”. Tu viu o demo lá fora e agora quer infiá a Noiva Morta dentro da nossa casa!
O clima esquentou feio. Zé Pequeno agarrou o braço de Zé João com força, as unhas pretas de terra cravadas na pele:
— Senta essa bunda aí, seu besta! Tu tá possuído. Amanhã nóis chama o benzedor pra te curá dessa loucura. Fica olhando as sombras quietinho, antes que o Homi da Mala venha de verdade te enfia na mala dele e te derretê pra fazê sabão.
Zé João olhou pra parede. A própria sombra dele, projetada pelo fogo, agora parecia um monstro torto pros outros. Ele entendeu: o pior não era estar preso à caverna. O pior era ter medo da luz e gostar da escuridão.
Ficaram mais um dia aquele dilema, achando que dava para resolver o problema da seca. Quando chegou a noite, Zé João dormiu do lado de fora, debaixo de uma árvore torta de cerrado, sentindo o cheiro forte de casca queimada e fruta silvestre. Os outros ficaram dentro, alimentando o fogo e discutindo as sombras até o dia clarear.
Na manhã do segundo dia, o sol nasceu quente sobre o chapadão. Zé João, sem falar nada com os companheiros, desceu pro vale, carregando enxada no ombro, e foi até seu sítio, que ficava ali perto, buscar um saco de calcário que tinha conseguido depois da feira de Patrocínio.
Mas a maioria continuou dentro da caverna, olhando pra parede. Porque o medo do Homem da Mala, da Noiva Morta e do Dicóque que não conseguia trazer chuva ainda era muito maior que a vontade de abrir os olhos e ver o mundo como ele era.
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Este texto é baseado na Alegoria da Caverna, também conhecida como Mito da Caverna, uma metáfora filosófico-pedagógica escrita por Platão no Livro VII da obra “A República”, que ilustra a jornada da ignorância (mundo das aparências) para o conhecimento verdadeiro (mundo das ideias).





