Press ESC to close

Por falar em peixe… O Som da Memória

Foto original do Rio Dourados (altura da ponte do Córrego da Mata, que não é o local citado na crônica, fica mais distante), as pessoas da margem direita foram acrescentadas por IA. Rede Hoje

Luiz Antônio Costa

A memória puxa a gente como correnteza. Pelo menos duas vezes por semana, sempre por volta das três da tarde, a molecada do bairro se juntava e seguia com ele rumo ao Rio Dourados. E o que volta primeiro nem é a imagem, é o som: a água correndo, a mata respirando, um mundo inteiro que parecia existir só ali, diferente de qualquer outro canto.

O ritual começava nos quintais, na parte mais úmida da terra. Era hora de “arrancar” minhoca — e era arrancar mesmo, com enxadão, sem delicadeza, direto pro fundo da terra fofa. Depois iam todas parar nas latas de extrato de tomate, improvisadas, amassadas, mas fiéis companheiras de pescaria. Cada um cuidando da sua, como quem guarda um pequeno tesouro.

Na sequência vinha o preparo das tralhas, aquele momento meio sério, meio empolgado. Lanterna, faca ou canivete, isqueiro — a tal da binga —, cigarro escondido (porque naquela época, fumar era quase um rito proibido), a matula bem embrulhada, o bornal pendurado no ombro, o vidro com anzóis e chumbadas e, claro, a vara de bambu jardim. Nada podia faltar. Era como se cada objeto tivesse sua função exata naquele universo.

A estrada começava a cantar quando as bicicletas pegavam o cascalho. O barulho dos pneus cheios marcava o ritmo, como um compasso conhecido. No caminho, o Patrola (Antônio Andrade), zagueiro do Ferroviário, timaço na década de 1970, do Alto da Estação (São Judas), pescador de mão cheia, ia falando, explicando qual isca usar, como fisgar tal peixe, onde insistir, onde esperar. A gente ouvia tudo, mesmo sem entender completamente. Em pouco tempo, cada um na sua magrela, o grupo chegava ao destino.

A beira do rio era um espetáculo à parte. O ponto preferido ficava no encontro do Dourados com o Córrego Feio. Acima não podia, era água de abastecimento da cidade. Ali embaixo, o cenário misturava corredeira e remanso, e bastava jogar o anzol para acreditar que ia dar certo. Lambaris e piabas, pequenos e espertos, faziam a festa — e também enganavam fácil. Num descuido, levavam a isca embora e sumiam na água.

Todo mundo queria pescar perto do Patrola. Não era só admiração, era tentativa de aprender o jeito, o tempo, o silêncio. Mas os peixes dali não facilitavam. Eram ariscos, acostumados com gente, talvez por estarem tão perto da cidade. Ainda assim, era ali que a vida acontecia, era ali que o lazer da gente se desenhava.

A tarde ia escorrendo devagar, como o próprio rio. Quando a noite caía, mudava o tipo de pescaria. Era hora dos bagres e dos mandis. Mais fáceis, diziam. Bastava procurar água mais funda, protegida, cheia de galhada. O Patrola ensinava com paciência: jogar o anzol no canto do poço, deixar quase no fundo. Era lá que eles ficavam.

E funcionava. O bagre vinha sem cerimônia, engolia o anzol, não dava muita chance de erro. Diziam que quem perdia bagre não pescava mais nada. E a carne, depois, compensava tudo. Aos poucos, as sacolas de pano iam ganhando peso, cheias de lambaris, piabas, pirapitingas.

O frio começava a aparecer, mesmo cedo, lá pelas sete da noite. Em silêncio, a turma armava uma fogueira com galhos secos. Pra espantar os borrachudos, queimavam esterco seco de gado — solução simples, que funcionava. De vez em quando, alguém puxava um peixe e vinha mais um ensinamento:

— Cuidado com o mandi. O ferrão dói, e dói mesmo – dizia o Patrola, do alto da sua sabedoria de pescador.

E aquilo era levado a sério. Mesmo morto, o peixe ainda oferecia risco. Se entrasse na pele, era hospital na certa. Não tinha brincadeira com isso.

Lá pelas nove, vinha a ordem que ninguém queria ouvir:

— Gente, juntando tudo. Vambora.

Sempre tinha um que pedia mais um tempo, geralmente o que estava pegando mais peixe — ou o que não tinha pego quase nada. Mas não adiantava. Quem mandava era o Patrola, e ele tinha a confiança dos pais de todo mundo. Era uns dez anos mais velho, já homem feito.

A volta era mais silenciosa. Cada um na sua bicicleta, cansado, mas satisfeito. Em pouco mais de quarenta minutos, todo mundo já estava em casa. Só que ainda tinha trabalho: limpar os peixes antes do banho, deixar no sal, como mandava a mãe. Minha mãe, dona Dina, era austera:

— Pode limpar e preparar tudo, eu não ponho a mão nisso! — dizia.

No dia seguinte, a escola parecia mais longa. A cabeça já estava no prato: bagre ao molho, piaba frita, pirapitinga crocante. Era só esperar chegar a hora de voltar para casa, sabendo que a mãe tinha preparado tudo com o maior carinho. E, depois disso, começar a contar os dias de novo.

Baseada na crônica original publicada no primeiro livro do autor “O Som da Memória” em 2012.

@redehoje
Esta mensagem de erro é visível apenas para administradores do WordPress

Erro: nenhum feed com a ID 1 foi encontrado.

Vá para a página de configurações do Instagram Feed para criar um feed.