
Ancelotti convoca Neymar: além dessa, outras incoerências mostram que o dominínio Rio-Sáo Paulo continua forte no país. Foto: Rafael Ribeiro / CBF
Ancelotti cede ao lobby de Rio e São Paulo e deixa de formar uma seleção mais completa para a Copa do Mundo; exclusões de Kaiki, Matheus Pereira, Gerson, Luciano Juba e a ausência de Everson (goleiro do Atlético) escancaram critérios políticos na escolha dos 26 nomes
Por Luiz Antônio Costa
Depois de longos anos sem convocar uma quantidade expressiva de jogadores que atuam no Brasil, quando isso finalmente aconteceu foi profundamente decepcionante ver que apenas dois estados comandam as decisões da nossa equipe nacional. A divulgação da lista dos 26 convocados pelo técnico Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo Fifa 2026 confirmou o que muitos analistas de bastidores já temiam no cenário esportivo do país. O sentimento geral após a solenidade realizada no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, é de profunda insatisfação e injustiça, principalmente para o futebol praticado fora do eixo tradicional de paulistas e cariocas. Ficou evidente que, mesmo ostentando a bagagem de um treinador estrangeiro consagrado na Europa, o comandante italiano sucumbiu ao forte lobby político exercido pelas forças do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Diante do racha provocado na opinião pública pelas escolhas controversas, o comandante da Amarelinha tentou adotar uma postura conciliadora para conter o descontentamento nacional. “Sinto muito que outros não estão aqui, como esteve Bento por exemplo, Hugo Souza, eu sinto muito, me dá um pouco de tristeza, mas eles terão, como outros jovens que não estão na lista, como Andrey Santos, João Pedro, terão a chance of estar no projeto da próxima Copa do Mundo. Tenham confiança neste grupo, pode não ser o grupo perfeito, mas é um grupo focado, concentrado, humilde, altruísta. Minha ideia é focada no coletivo, não no individual”, declarou o técnico Carlo Ancelotti durante a entrevista coletiva.
Apesar do discurso pacificador do treinador, o torcedor mineiro tem motivos de sobra para protestar contra as decisões da comissão técnica da Confederação Brasileira de Futebol. O Cruzeiro mantinha cinco atletas na lista de 55 profissionais monitorados, com destaque para a ausência de Matheus Pereira. O meio-campista é hoje mais importante para a engrenagem do Cruzeiro do que Lucas Paquetá é para o elenco do Flamengo, apresentando uma liderança técnica e um poder de decisão que mereciam a camisa amarela. A exclusão de nomes como Kaiki e Gerson quebra o planejamento de valorização do futebol do Estado e escancara o preconceito geográfico.
A insistência em ignorar os destaques do futebol nacional para privilegiar escolhas conservadoras ficou nítida no preenchimento das vagas para a lateral esquerda do time de Carlo Ancelotti. A comissão técnica optou por fechar o setor convocando Alex Sandro, do Flamengo, e Douglas Santos, que atua no Zenit, da Rússia. Com essa escolha burocrática, o treinador barrou não apenas o cruzeirense Kaiki, mas também o jogador Luciano Juba, lateral-esquerdo do Bahia, que faz temporada impecável em Salvador e merecia um olhar mais atento e descentralizado da comissão técnica, provando que o Nordeste também foi preterido pelo favoritismo do Sul-Sudeste.
No ataque, a linha de critérios adotada pelo treinador italiano gerou debates inflamados em todas as mesas redondas do país devido à convocação do atacante Neymar, atualmente vinculado ao Santos. A presença do experiente camisa 10 na listagem final é alvo de contestação severa por parte da crônica especializada e dos torcedores, sob a justificativa de que o atleta carrega um histórico recente e pesado de lesões. O rendimento em campo do jogador exibe patamares bem abaixo da intensidade exigida para um torneio da magnitude de um Mundial de seleções, parecendo mais uma escolha de marketing do que técnica.
A insatisfação com a mentalidade da CBF também encontrou eco na torcida do Flamengo, que, apesar de ver atletas do clube na lista, manifestou decepção pública com o corte do centroavante Pedro. No cenário de Minas Gerais, a polêmica sobre a posição de goleiro ganhou contornos de revolta com a lembrança de Everson, arqueiro titular do Atlético Mineiro. O profissional é indiscutivelmente hoje um dos melhores goleiros em atuação no país, vivendo uma fase técnica muito superior à dos goleiros chamados, mantendo regularidade de alto nível no campeonato nacional que justificaria sua inclusão imediata.
No fim das contas, a história nos mostra que, quando a bola rola pra valer no gramado, o torcedor apaixonado acaba esquecendo todas as picuinhas políticas e passa a torcer fervorosamente pelo sucesso da Amarelinha. O sentimento de patriotismo esportivo costuma falar mais alto e une o país em torno do objetivo comum de conquistar o tão sonhado hexacampeonato mundial, independentemente do clube de origem dos atletas selecionados. No entanto, que é profundamente frustrante ver essa dependência crônica das forças políticas do litoral e a exclusão dos valores do nosso interior, disso não há a menor dúvida nesta caminhada inicial.





