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Crônicas e Contos da Estrada | Cantos de Patrocínio antes do grito de Canudos

Luiz Antônio Costa

Era 1880.

O jornalista chegou à região de Salitre depois de dias de viagem por caminhos estreitos, cercados por mato fechado e pequenas roças espalhadas. O silêncio do sertão era cortado apenas pelo canto de aves e pelo som distante de gente reunida.

A Fazenda do Capão não era grande nem imponente. Pelo contrário: casas simples de barro, cobertas de palha, algumas fogueiras acesas e um movimento constante de pessoas. Havia algo diferente ali. Não era apenas um ajuntamento comum.

Homens de semblante cansado, mulheres com crianças no colo, velhos sentados em bancos rústicos — todos reunidos não por comércio ou festa, mas por fé.

O jornalista observava em silêncio, anotando em seu bloco.

Percebia-se logo que aquele lugar não era apenas religioso. Era refúgio. Muitos dos que estavam ali pareciam ter deixado para trás uma vida dura, marcada por trabalho pesado, pouca terra e quase nenhuma proteção das autoridades. Ali, compartilhavam alimento, palavra e esperança.

No centro de tudo, uma figura que não precisava se impor para ser seguida.

José Antônio de Souza.

Chamavam-no de Pai Eterno. Alguns, de Padre Eterno.

Não vestia batina, não havia igreja construída, não havia altar de luxo. Ainda assim, quando falava, todos se calavam. Quando orava, todos acompanhavam.

O jornalista notou algo que lhe chamou atenção: não era um fanatismo desordenado, como muitos depois descreveriam. Havia organização, havia respeito, havia um senso de comunidade.

Aquilo lhe lembrou relatos que ouvira — histórias de outros movimentos que surgiriam anos mais tarde, como o de Antônio Conselheiro. Assim como naquele futuro episódio, também ali havia um povo reunido em torno de fé e justiça, distante das estruturas oficiais.

E, como em outros casos, aquilo parecia incomodar.

Ao longe, alguns homens comentavam em voz baixa sobre a preocupação das autoridades de Patrocínio. Falava-se em desconfiança, em perigo, em necessidade de intervenção.

O jornalista anotou essa palavra: medo.

Mas não era o medo do povo.

Era o medo de quem via o povo unido.

Respirou fundo, fechou por um instante o bloco e caminhou até o centro do agrupamento.

José Antônio percebeu sua aproximação antes mesmo que ele dissesse qualquer palavra.

— O senhor veio de longe — disse, com tranquilidade.

O jornalista fez um leve aceno, abrindo novamente o bloco.

— Vim entender. Posso fazer algumas perguntas?

— Pode. — respondeu. — Quem busca entender já está no caminho certo.

O jornalista preparou o lápis.

— Chamam o senhor de Pai Eterno. Quem é, de fato, José Antônio de Souza?

— Um homem como qualquer outro. — disse. — Mas que não aceitou ver o povo sofrer calado.

— E por que eles o seguem?

José Antônio olhou ao redor.

— Porque aqui encontram o que lhes falta lá fora. Escuta. Partilha. Esperança.

— As autoridades dizem que isso pode virar desordem.

— Para eles, sim. — respondeu com firmeza. — Porque aqui ninguém baixa a cabeça por costume.

O jornalista anotava sem parar.

— O senhor pretende formar algo maior? Um movimento?

— Isso já é maior do que eu. — disse José Antônio. — Não começa em mim… e não termina em mim.

O jornalista hesitou antes da próxima pergunta.

— Já ouvi falar que outros homens, em outros lugares, também reuniram o povo assim. A história tende a terminar em conflito. O senhor acredita nisso?

José Antônio ficou em silêncio por alguns segundos.

— Quando o pobre se junta… o poder responde. — disse por fim. — Nem sempre com palavra.

Um vento leve passou entre eles.

— E o senhor teme o que pode acontecer?

— Não temo por mim. — respondeu. — Temo que não entendam o que estamos fazendo aqui.

O jornalista fechou o bloco lentamente.

— E o que estão fazendo?

José Antônio olhou firme.

— Tentando viver com dignidade.

O jornalista assentiu.

Ao se afastar, voltou a observar aquele lugar: simples, mas cheio de significado. Não era apenas fé. Era resistência silenciosa.

E enquanto escrevia suas últimas notas, teve a sensação de estar presenciando algo que, mesmo pequeno aos olhos do mundo, carregava o mesmo espírito de outros episódios que marcariam a história do Brasil.

Histórias que muitos chamariam de fanatismo.

Mas que, vistas de perto, pareciam apenas o grito de um povo que não queria mais ser esquecido.


Texto fundamentado em fatos reais colhidos pelo historiador Eustáquio Amaral em Salitre (distrito de Patrocínio, MG). A história, escrita com licença poética, reconta a trajetória de José Antônio de Souza, conhecido como Pai Eterno.

@redehoje
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