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Sobre poesias – Com a Palavra… Elza Lima

Escrever poesias não é algo “necessário” no sentido prático — mas é profundamente humano.

A poesia existe porque nem tudo cabe em explicações diretas. Há sentimentos, lembranças e percepções que ficam imprecisos quando tentamos descrevê-los de forma lógica. A poesia entra justamente aí: ela dá forma ao que é difícil de dizer.

Ela serve para organizar emoções, transformar experiências em algo compreensível e, muitas vezes, aliviar o que está pesado por dentro. Quando alguém escreve, não está só criando um texto, está traduzindo uma vivência.

Também há o outro lado: quem lê. A poesia cria conexões. Às vezes você encontra um verso e pensa “isso sou eu”, mesmo que tenha sido escrito por outra pessoa, em outro tempo. É uma forma de compartilhar o que é íntimo sem precisar explicar demais.

Além disso, escrever poesia desenvolve sensibilidade com a linguagem. Você começa a perceber melhor as palavras, os sons, os silêncios, e até o mundo ao redor ganha mais nuance.

Mas nem tudo precisa ser profundo: às vezes se escreve poesia simplesmente pelo prazer de brincar com palavras, ritmos e imagens.

No fim, talvez a melhor resposta seja simples:
as pessoas escrevem poesia porque precisam, ou porque querem entender melhor o que sentem.

Você pode começar escrevendo sem saber exatamente o porquê, só uma frase solta, uma imagem, uma sensação. E, no meio do caminho, algo se revela. A poesia tem esse efeito curioso: ela não é só resultado do pensamento, ela também produz pensamento. Enquanto você escreve, você descobre coisas que não sabia que estavam ali.

Há também uma liberdade única nela. Diferente de outros tipos de escrita, a poesia não exige regras rígidas. Pode ser curta ou longa, rimada ou não, clara ou cheia de mistério. Ela permite errar, experimentar, quebrar estruturas, e isso, por si só, já é libertador.

E tem o silêncio.

A poesia não vive só do que é dito, mas do que fica nas entrelinhas. Às vezes, o que não se escreve é tão importante quanto as palavras escolhidas. É como se o leitor completasse o poema com a própria experiência.

Por isso, escrever poesia é também um ato de escuta de si mesmo e do mundo. Você começa a notar detalhes que antes passavam despercebidos: a luz no fim da tarde, um gesto pequeno, uma palavra dita de um jeito diferente.

No fundo, poesia é uma tentativa de capturar algo que está sempre escapando.

E talvez seja exatamente isso que a torna tão valiosa.

O tempo

O tempo não chora
O amor que guardamos
No coração atormentado
Esquecidos sem dores
Ou com lembranças eternas

O tempo não fica
Cobrando o que passou
Chorando pela tempestade
Ou lamentando o que perdeu

O tempo não passa
Ele se deita sobre as coisas.
Fica nos cantos da casa,
Na xícara esquecida,
No cheiro de chuva que volta
Sem nunca ser o mesmo

Ele não corre,
quem corre somos nós
Tentando alcançar o que já fomos.

Há dias que ele pesa,
Como um céu antes da tempestade.

Outros, escorre leve,
Feito água entre os dedos.

O tempo não fala,
Mas responde em silêncio:
Nas rugas que aparecem,
Nos nomes que somem,
Nas memórias que insistem.

E, ainda assim,
Há algo que ele não leva

Un instante suspenso,
Quase eterno,
Quando a vida, sem aviso,
Resolve ficar.

Elza Lima é escritora e empresária do setor de educação, mora em São Matheus, ES, e colabora semanalmente com a Rede Hoje

@redehoje
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