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O arauto das manhãs no rádio | Cronicas e contros da Estrada | O Som da Memória

Humberto Cortes, no estúdio da Rádio Difusora. Foto: Rede Hoje

Luiz Antônio Costa

“Hoje num vô vê o CAP jogá, não. Vou fazer sete quilômetros de cerca de arame farpado”. Ou ainda: “Esse programa num tem audiência, não, podexá”. Era com esse espírito, carregado de tiradas criativas e um humor genuinamente local, que Humberto Côrtes despertava Patrocínio. Entre 1959 e 2005, de segunda a sábado, sua voz era o despertador oficial de uma cidade que ainda se reconhecia no rádio.

Humberto Côrtes era mestre no improviso. Suas locuções, célebres pelo duplo sentido e por frases que bem poderiam estampar para-choques de caminhão – que ele usava muito -, moldaram o vocabulário da região. O bordão “podexá” atravessou as ondas do rádio, virou gíria popular e foi imortalizado em música pela dupla Gino & Geno, amigos pessoais do locutor.

Numa época em que o rádio era o cordão umbilical entre a cidade e a zona rural, o programa do Humberto funcionava como um serviço de utilidade pública — uma espécie de “correio com telegrama falado”. Os recados precisavam ser curtos; a demanda era tanta que qualquer excesso de palavras silenciaria outra mensagem urgente.

O ritual era sagrado: quem morava na fazenda sintonizava a emissora entre as 7h00 e as 8h00 da manhã, na certeza de que receberia as notícias do mundo urbano. E era justamente nesse fluxo de informações que nasciam as passagens mais cômicas. O locutor jurava que o duplo sentido não era intencional, mas o público se deleitava.

Certa vez, a esposa de um produtor de queijo precisou ficar na cidade para receber um pagamento que seria feito em duas partes. Como apenas um comerciante pagou e o outro prometeu o restante para o dia seguinte, ela avisou ao rádio que teria de pernoitar. Humberto Côrtes não perdeu a chance e resumiu o recado com sua precisão característica:

— Alô, alô, seu João, na fazenda tal! Dona Maria avisa que não vai hoje porque o negócio não entrou tudo. Amanhã entra o resto e ela vai.

Em outra ocasião, para avisar um marido sobre o nascimento do filho e a alta hospitalar da esposa, ele disparou:

— Alô, senhor fulano! Dona beltrana avisa que já ganhou o nenê. É “menino homem” e os dois passam bem. Amanhã pode levar o cavalo no ponto que ela já aguenta. O ponto era o do leite, onde ficavam os latões que eram apanhados diariamente; e ela já cavalgar da estrada até a sede da fazenda.

As histórias são inúmeras, e o marketing da época também era uma atração à parte. Patrocinado pelas Casas Manuel Nunes, Humberto Côrtes inseria os compradores nos anúncios de forma astuta. Certa vez, um fazendeiro comprou um colchão de casal novo, mas decidiu levá-lo diretamente para a casa da amante. E o Humberto mandou no dia seguinte: “O ‘seu’ Joaquim, produtor de leite da região do Espigão, é inteligente; comprou um colchão novinho, novinho, no Manuel Nunes. Agora vai dormir tranquilo com a dona Filomena”.

A esposa, que passava o café atenta ao rádio, chegou na janela da cozinha e gritou para o seu Joaquim, no curral: “Quinca, que história é essa de colchão que você comprou na cidade?”. O marido, “esperto”, disse que havia esquecido o colchão na cidade e que iria buscá-lo. No dia seguinte, Humberto Côrtes arrematou no ar:

— O sô Joaquim é mesmo inteligente e sabe economizar. Gostou tanto do colchão que voltou ao Manuel Nunes e comprou outro igualzinho!

Acordar com aquela “lereia” era um privilégio. Humberto Côrtes foi o nosso “Chacrinha”, um gigante do rádio brasileiro que marcou seu tempo com simplicidade, alegria e uma dose generosa de ingenuidade. Ele foi, por quase meio século, a alma imbatível das manhãs patrocinenses.


Esta crônica é baseada em fatos reais e teve uma versão publicada originalmente na obra “Patrocínio Minha Terra”, editada pela Academia Patrocinense de Letras.

@redehoje
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