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Café da Manhã de dona Dina | Crônicas e Contos do Caminho

Luiz Antônio Costa

Meus irmãos e eu sempre acalentamos um amor especial pelo mês de junho e pelo inverno como um todo. Não era difícil compreender o motivo. Dona Dina, matriarca da família, erguia-se antes de todos — como só as mães sabem fazer — e, com infinita paciência e carinho, nos despertava para a escola. No futuro, seríamos oito. Naqueles dias, éramos apenas quatro, e somente dois seguiam, pela manhã, para a Escola João Beraldo, no bairro São Francisco: minha irmã Joana e eu.

Por que o inverno nos encantava tanto? Porque era na estação fria que nos aquecíamos no “rabo” do velho fogão a lenha. Ainda hoje guardo, vivo na memória, o crepitar doce e acolhedor daquele fogo. Sentados ali, assistíamos, quase em transe, ao ritual sagrado de minha mãe preparando o café da manhã e o leite recém-ordenhado no curral, onde meu pai cuidava de suas cinco vacas. Tudo acompanhado de um chocolate quente e espesso.

Minha mãe executava aquele preparo com a solenidade de um ofício antigo. Primeiro, os instrumentos: pegava o mancebo de madeira, feito de três ripas rústicas, em forma de cone invertido, largo na base e estreito no topo. Sobre ele, encaixava uma peça com um buraco redondo, onde assentava o imenso coador de pano, já envelhecido pelo uso e pela devoção.

Em seguida, colocava água para ferver na caçarola que chamávamos carinhosamente de “rabinha”, adoçava generosamente e moía o café no velho torrador de lata em forma de globo, preso à lateral da mesa da cozinha. O aroma que se desprendia — intenso, terroso, quase ritualístico — invadia a casa e despertava a alma.

Então vinha o momento mágico: despejava o pó fresco no coador e, lentamente, vertia a água fervente. O vapor subia em nuvens perfumadas, envolvendo a cozinha num abraço quente e aromático. Logo depois, partia um generoso pedaço de queijo fresco, ainda úmido de soro, e servia ao lado de fatias fartas de bolo de fubá, cuja chaminé soltava, pelo telhado, uma delicada fumaça branca — sinal de que a vida, ali, pulsava com amor.

Dona Dina apanhava o bule esmaltado azul, as xícaras floridas, servia o café fumegante e, com voz suave, advertia:

— Depressa, gente, senão vocês perdem a aula.

Porém, na quentura daquele fogão, onde as labaredas dançavam em tons de ouro e carmim, minha irmã e eu permanecíamos quietos, relutantes em deixar o aconchego, como quem finge dormir num dia chuvoso. Minha mãe servia o chocolate com leite, já com o semblante de quem sabia que o tempo urgia. E nós, fingindo inocência.

Até que ele surgia, senhor absoluto da casa, chinelo em punho e autoridade na voz:

— E aí? Vocês vão descer desse fogão agora e ir pra escola, ou querem que eu esquente a bunda de vocês?

Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Descíamos em um instante, pegávamos a pasta e partíamos para a rua, rumo à escola. Naqueles tempos, carinho, afeto e educação andavam de mãos dadas com a autoridade paterna — e quando esta era desafiada, o “coro cantava”.

Hoje, o fogão a lenha tornou-se politicamente incorreto. Prefere-se o gás boliviano, o fogão de quatro ou seis bocas e até elétrico, asséptico, sem fumaça, sem cinzas, sem alma. As chaminés que outrora anunciavam vida agora são acusadas de poluição e efeito estufa. Nem lareira se pode acender sem culpa.

Minha mãe faleceu há cinco anos, aos 93 de idade, quando as obrigações domésticas de outrora já não faziam parte de sua rotina. Ela não precisava mais realizar tarefas como acender o fogo, moer os grãos de café, buscar o leite no curral ou preparar o bolo de fubá ao amanhecer. Embora as limitações físicas da idade avançada já não permitissem tais esforços manuais, o vigor de seu afeto permanecia inalterado. Ela preservou, até o fim, a dedicação e o carinho materno direcionados a cada um de seus oito filhos.

A trajetória de vida da matriarca foi caracterizada por décadas de labuta contínua para garantir o sustento familiar em um contexto específico. O cotidiano transcorria no ambiente doméstico do antigo Alto da Estação, localidade que atualmente corresponde ao bairro São Judas, no município de Patrocínio, Minas Gerais. Naquela época, a região apresentava uma configuração urbana com fortes traços rurais, exigindo esforços típicos do campo. Mesmo com o descanso alcançado na velhice, sua autoridade afetiva e presença simbólica permaneceram preservadas entre os descendentes. A ausência do manejo diário de ferramentas na cozinha ou nas tarefas externas não diminuiu sua influência, que se manifestava por meio do acolhimento. A transição para um período de menor exigência física possibilitou que a relação com os familiares se concentrasse integralmente nos vínculos emocionais.

Convenhamos: a vida ficou mais prática, mais fácil. Os produtos que antes exigiam ritual agora são encontrados, embalados e assépticos, nas gôndolas do supermercado. Trazem o selo da Vigilância Sanitária, mas perderam, no caminho, o aroma profundo, o sabor verdadeiro e, sobretudo, o amor que só mãos maternas sabem imprimir.


Inspirando na crônica que integra o livro do autor “O Som da Memória – Volume I”, publicado em 2012.

@redehoje
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