
Produção cafeeira brasileira possui cadeia extensa de fornecimento e pressão por produtividade no campo | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Segundo denúncia relatório identificou indicadores de trabalho forçado em 100% dos casos analisados e média de 5 situações de exploração por trabalhador entrevistado
Da Redação da Rede Hoje
Um estudo conduzido pela organização KnowTheChain, em parceria com a Articulação dos Empregados Rurais do Estado de Minas Gerais (Adere-MG), identificou indicadores de trabalho forçado em 100% das fazendas de café analisadas no estado. A pesquisa utilizou critérios da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para avaliar condições laborais no setor. Segundo o relatório, cada trabalhador entrevistado relatou, em média, 5 situações de exploração. O levantamento analisou casos registrados durante operações de fiscalização realizadas em propriedades cafeeiras mineiras.
O relatório, divulgado no início de fevereiro, recebeu o título “Eu não voltaria nunca: Riscos de Trabalho Forçado nas Cadeias de Fornecimento do Café no Brasil”. Para a elaboração do documento, foram entrevistados 24 trabalhadores rurais. Eles fazem parte de um grupo de 100 pessoas resgatadas de condições análogas à escravidão. Os trabalhadores foram localizados pela Adere-MG entre maio e outubro de 2025. As entrevistas ocorreram após fiscalizações realizadas em 9 fazendas de café no estado de Minas Gerais.
De acordo com os responsáveis pelo estudo, o levantamento aponta problemas estruturais na cadeia produtiva do café no Brasil. O país é o maior exportador mundial do produto. Entre os principais mercados compradores estão Estados Unidos, Alemanha, Itália e Japão. Especialistas afirmam que a grande dimensão econômica da atividade amplia a complexidade da cadeia produtiva. A estrutura envolve terceirização, recrutamento informal e forte pressão por produtividade durante o período de colheita.
Segundo Jorge dos Santos, coordenador da Adere-MG e integrante da direção da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em Minas Gerais, cerca de 67% dos trabalhadores do café atuam sem carteira assinada. A informalidade reduz o acesso a direitos trabalhistas e a garantias de segurança e saúde no trabalho. Ele afirma que a atividade emprega grande número de trabalhadores rurais. A produção também envolve milhares de produtores distribuídos por diferentes regiões do estado.
Indicadores
Entre os principais problemas relatados pelos trabalhadores estão informalidade, contratos precários e vulnerabilidade econômica. O estudo também identificou condições inadequadas de trabalho e moradia. Outros fatores apontados foram engano no recrutamento e restrições nas condições de deslocamento. Os dados indicam ainda ausência de fiscalização efetiva por parte de grandes compradores internacionais. Especialistas afirmam que a situação pode ser agravada por fatores ambientais e mudanças climáticas.
A pesquisadora Marina Novaes, do Business and Human Rights Resource Centre (BHRC), afirma que a cadeia global de fornecimento apresenta grande concentração de poder econômico. Segundo ela, a produção ocorre em territórios rurais distantes dos centros decisórios. Já o valor econômico e a capacidade de decisão ficam concentrados em empresas compradoras e cooperativas. Esses agentes também atuam em mercados consumidores internacionais. A estrutura dificulta o controle direto das condições de trabalho no campo.

Capa do site da organização KnowTheChain, para ver o relatório, clique no link abaixo
O relatório também aponta que empresas multinacionais dominam parte significativa do mercado consumidor de café. Entre elas estão Nestlé, Starbucks e McDonald’s. Segundo especialistas, essas companhias possuem influência na organização da cadeia global de fornecimento. O estudo afirma que a fiscalização sobre fornecedores pode ser limitada. Isso aumenta o risco de violações trabalhistas nas etapas iniciais da produção.
As entrevistas realizadas durante a pesquisa analisaram temas como recrutamento, condições de trabalho, alojamento e segurança. Os pesquisadores também avaliaram questões relacionadas à liberdade de associação e acesso a reparação. Por razões de segurança, o relatório não divulgou nomes de fazendas ou empregadores envolvidos. O estudo foi conduzido com base em informações coletadas diretamente com os trabalhadores. Parte das entrevistas ocorreu após operações de resgate realizadas por órgãos de fiscalização.
Dados
O levantamento identificou indicadores de trabalho forçado definidos pela Organização Internacional do Trabalho. Entre eles estão abuso de vulnerabilidade, engano no recrutamento e restrição de circulação. Também foram registrados casos de isolamento, retenção de salários e servidão por dívida. O estudo apontou ainda situações de jornadas excessivas e condições degradantes de trabalho e moradia. Em alguns relatos foram mencionados episódios de violência física e intimidação.
O relatório também descreve ambiente de medo entre trabalhadores entrevistados. Segundo o documento, o receio de perder o emprego ou sofrer represálias dificultou o relato de experiências. Em um dos casos citados, um trabalhador foi transferido para outra função como punição. Ele teria sido obrigado a realizar tarefas equivalentes às de vários empregados. O relato descreve que o trabalhador demonstrava temor de sofrer novas sanções.
Durante a realização da pesquisa, integrantes da Adere-MG relataram episódios de intimidação. Segundo o documento, pesquisadores foram ameaçados por proprietários de fazendas. Em um dos casos, houve disparos de arma de fogo durante a visita ao local. Em outra situação, o proprietário de uma propriedade teria ameaçado impedir a saída dos pesquisadores. O relatório afirma que os episódios ocorreram durante o processo de coleta de informações.
A tipificação de trabalho análogo à escravidão no Brasil segue o Artigo 149 do Código Penal. A legislação considera crime reduzir alguém a essa condição por meio de restrição de liberdade ou servidão por dívida. O dispositivo também inclui jornadas exaustivas e condições degradantes de trabalho. A norma abrange ainda situações que representem risco à saúde ou à segurança dos trabalhadores. Esses critérios são utilizados nas operações de fiscalização trabalhista no país.
Para acessar o relatório completo da pesquisa, clique aqui.
Fonte: Brasil de Fato





