Tempo.
O poder da mente, do pensamento, permite viajar por ele. Permite até visitar à imortalidade. Diversas vozes patrocinenses moram nesse pedaço da eternidade. Vozes de radialistas que se foram. Entretanto, as suas vozes não foram esquecidas. Jamais o serão. Vozes como de Joaquim Assis, Humberto Cortes, Roberto Taylor e Renato Oliveira (esse falecido há duas semanas) ecoam nos céus da cidade.



A pandemia trouxe para toda a sociedade momentos de dúvida e incerteza e situações totalmente inusitadas. Nem na segunda guerra mundial, por exemplo,  ouviu-se falar de fechar fronteiras entre países e muito  menos um país fechando fronteiras entre   suas cidades. Estabeleceu-se uma guerra silenciosa. Não nos resta dúvida  de que a pandemia afetou praticamente todos os setores da sociedade.  Com o ensino, com as escolas não foi diferente. Vivemos o avesso das coisas.
Em março do ano passado, de um dia para o outro,  vimos  a escola sem alunos. Três coisas são essenciais na escola: a presença do professor, a presença do aluno e a sala de aula. Repentinamente, não se tinha mais na escola nem o aluno, nem o professor  e a sala de aula estava completamente vazia.



Naquela situação do “e agora o que fazer”, rapidamente no Colégio Atenas, descobrimos o caminho das pedras e cinco dias após a paralização começávamos as aulas remotas. Imaginávamos que tudo voltaria ao normal em sessenta dias. No entanto, foram catorze meses. No inicio, parecia que estávamos em um buraco negro, mas, aos poucos, foi surgindo uma normatização para o ensino remoto. As normas do Conselho Estadual de Educação, por exemplo,  são minuciosas: toda escola particular deve gravar as aulas e mantê-las arquivadas por cinco anos.
As aulas remotas funcionam bem, mas existem muitos percalços. Os professores se desdobram na preparação das aulas, na gravação de vídeo, na necessidade de prender a atenção dos alunos diante de uma tela de computador. Há uma tarefa excessiva que, muitas vezes, leva o professor à exaustão.  O ensino remoto  deixa lacunas para as escolas e principalmente para os pais. Ajudar os filhos, principalmente das séries iniciais, não é tarefa fácil para os pais. Muitos,  quando chegam do trabalho, à noite ainda tem  de cuidar do estudo dos filhos, ajudá-los a fazer tarefa, ensiná-los a ler. Aos jovens, falta-lhes, muitas vezes,  a disciplina pessoal para ficar quatro, cinco horas diante do computador.
A pergunta que ainda perdura é se realmente está na hora de os alunos voltarem para as escolas, mesmo porque cada cidade age de uma forma diferente quanto a data de volta e com quem voltar. Em muitas cidades, por exemplo, como Patrocínio, não se permitiu a volta imediata do Ensino Infantil. Já, em Belo-Horizonte, a prefeitura determinou a volta primeiro do Ensino Infantil. Como não se tem um parâmetro para mediar estas situações, prevalece o bom senso, a avaliação da expansão ou do recrudescimento da Covid 19 e a necessidade  mesma de voltar às aulas.
Em Patrocínio, dia vinte e quatro de maio, completamos o retorno de todas as turmas, iniciado em dez de maio, com aprovação das  secretarias de Saúde e de Educação que preparou, através de uma série de reuniões, este retorno.  Acredito, sim, que está na hora de voltar às aulas e que a  medida da prefeitura foi acertada. As crianças e os jovens precisam do convívio social que o colégio lhes proporciona.  O isolamento lhes causa irritação, ansiedade, tensões e, muitas vezes, um comportamento depressivo.
Estava na hora de voltar, sim. Os professores estão exaustos, os pais estão sobrecarregados com as tarefas escolares dos filhos pequenos, as crianças já não aguentam mais o isolamento dentro de casa. Do ponto de vista didático-pedagógico, é necessário sanar as deficiências existentes e só o ensino presencial nos permite fazê-lo com eficiência.
Nada melhor do que o retorno às aulas. O Colégio ganhou  nova vida, os jovens retornaram à convivência com seus grupinhos, como é próprio da adolescência, e as crianças esbanjam alegria nos corredores e pátios do colégio. Temos relatos de pais de que as crianças, após voltarem para as aulas, estão muito mais calmas em casa, sem ansiedade.
No caso do Colégio Atenas, tudo está muito bem organizado e estamos seguindo, rigorosamente, em todos os setores, o protocolo estabelecido pelo Conselho Nacional e pelo Conselho Estadual de Educação e atendendo, também, as orientações da  Secretaria Municipal de Saúde e Secretaria Municipal de Educação.   Corredores, maçanetas das portas, corrimãos são desinfetados quatro vezes ao dia.  A entrada dos alunos está dividida em dois grupos e cada grupo entra por uma portaria para evitar aglomeração. O Colégio tem muito espaço, muitas  áreas para esportes. Com isto, conseguimos manter o distanciamento até mesmo nos intervalos e recreios e os alunos cumprem  muito bem as normas. Estamos tendo todo cuidado não só com as crianças, mas também com os jovens e também com professores e funcionários.
A Secretaria Municipal de Saúde teve a feliz ideia de iniciar a vacinação de professores e funcionários da educação o que, sem dúvida, trará muita tranquilidade para todos e segurança para os pais.
É preciso que os pais confiem no trabalho das escolas e retornem seus filhos aos Colégios. Sinceramente, acredito que os alunos estão  muito mais seguros e protegidos no Colégio do que nas ruas, do que nos clubes, ou mesmo na convivência familiar, pois nas escolas estamos sempre cuidando deles.



Gravura retratando passagens de bandeirantes pela região da Farinha Podre(retatada pelo colunista).
 (Commons PD-Art.|domínio publico).





Primeiro de Maio de 1962: inauguração do Estádio Júlio Aguiar.
Reprodução de "O Diário" de Belo Horizonte

Professor. Patrocínio teve, e tem, excelentes nos seus 120 anos de história educacional. Mas, quando se diz mestre, o número é reduzido. No pódio de mestre estão os célebres, os catedráticos, os educadores na acepção da palavra educação e os influentes de vida. Como professora, durante 38 anos, no Ginásio Dom Lustosa, Olga Barbosa é um exemplo de mestre. Grande mestre.
 
A VIDA – Olga nasceu em 12/9/1923, na, hoje, Rua Governador Valadares, próximo onde havia a tipografia da Gazeta de Patrocínio, na era Sebastião Elói (1938-1985). Casou-se apenas com a educação. Nos anos 70, transferiu residência para a Rua Rio Branco, vizinha do radialista Pedro Alves do Nascimento. Não teve filhos. Viveu como gostava: solteira. Aos 82 anos de idade, faleceu em 03/4/2006, de maneira trágica (assassinada em sua casa).
 
A FORMAÇÃO – Nos anos 30, foi aluna do Grupo Escolar Honorato Borges. E depois, com bolsa de estudo, fez o então curso colegial (inclusive o Normal) no Colégio Nossa Senhora do Patrocínio (hoje, Belaar). Sempre como destaque escolar. No começo da década de 40, tornou-se a primeira professora do Curso de Admissão no Ginásio Dom Lustosa (Admissão era um curso de um ano ou seis meses, que propiciava ao aluno ingressar no Ginásio Dom Lustosa. Era como se fosse um curso “preparatório” ou pequeno “vestibular”). A partir daí, virou docente no ginásio, onde a maioria dos professores era composta por padres holandeses. Olga dedicou-se à cadeira/disciplina de História. Também deu aulas de Português.
 
O CREPÚSCULO – Depois de passarem por suas mãos e ensinamentos inúmeras gerações de alunos, com predominância de adolescentes patrocinenses, Olga Barbosa terminou a sua caminhada educacional como Diretora da escola, que vivenciou por 38 anos: Ginásio Dom Lustosa. À época, já sob a gestão do governo estadual (1972).
 
ESCRITORA – Olga escreveu “Dom Lustosa, Seus Tempos Áureos”. Segundo três cartas manuscritas enviadas por ela a este cronista, a primeira versão do livro ocorreu em 1989. Depois, houve a edição manuscrita. E finalmente, em 1991, a edição impressa definitiva. O livro sintetiza o nascimento da escola em 1925 e seu apogeu até 1967, quando foi criado o 2º grau (ensino médio), com o denominado Curso Científico. Nessa ocasião, sob a direção do engenheiro Olímpio Garcia Brandão.
 
CONSIDERADA IMORTAL – Em 27 de maio de 1994, professora Olga Barbosa tomou posse na cadeira nº 9 da Academia Patrocinense de Letras-APL, cujo patrono é o Padre Mathias Von Rooy, holandês, o primeiro diretor do emblemático educandário. Olga ocupou a cadeira nº 9 deixada pelo imortal e criador da APL médico-poeta Michel Wadhy, falecido em 30/4/1985. A dedicação à educação, à cultura histórica, o bom domínio da língua portuguesa e a autoria de memoráveis páginas/textos, inclusive o livro mencionado, foram a razão que a levaram à Academia. Sem restrições.
 
PALAVRA DE UM HISTÓRICO DESEMBARGADOR – O patrocinense do Bairro São Vicente, Dr. Maurício Barros, lamentou, quando da morte da educadora: “... falecimento da Professora Olga Barbosa, mestre de inúmeras gerações de patrocinenses, dentre eles, você (Eustáquio). Também eu fui seu aluno, no Colégio Professor Olímpio dos Santos, nos anos 60, no tempo em que ali lecionaram outros grandes professores, como Franklin Botelho, Líria Lassi Capuano, Irma Carvalho, Sebastião Cirilo e Laga Wadhy, liderados pelo também inesquecível Abdias Alves Nunes. Na mesma época, Ana, minha mulher, também foi aluna de todos eles...” Hoje, Maurício, juiz e desembargador do Tribunal de Justiça de MG, está aposentado.
 
PALAVRA DE EX-ALUNA – “Tirar um 9 (nove) em provas de D. Olga era glória para qualquer aluno, porque um 10 (dez) era praticamente impossível. Nomes, datas e fatos deveriam ser descritos com exatidão e com letra caprichada. Eram normas de ensino daquele tempo. Professora Olga, por sua vida honrada e dedicação aos alunos, será sempre lembrada.” Fátima Othero Nunes, em 21 de abril de 2006. Ela é filha da também ex-professora do Dom Lustosa e Prof. Olímpio dos Santos, Marcelina Othero Nunes, hoje, residentes em Belo Horizonte. Irmã da atuante Mônica Othero.
 
HOMENAGENS RECEBIDAS – O Rotary Club Brumado dos Pavões concedeu-lhe honra ao mérito em 1998. Por algumas vezes, a Câmara Municipal destacou e homenageou Olga Barbosa. Como a dada pelo (falecido) presidente José Rodrigues de Souza por redação isenta sobre a Câmara Municipal, em 1994. A Casa da Cultura (ano 2000) e a (sua) Escola Estadual Dom Lustosa (1977) também reconheceram a joia cultural denominada Professora Olga. Nesse caso, no diploma recebido pela mestre, está escrito “Você ajudou a construir a nossa história.”
 
POR FIM – O seu sobrinho Lúcio Barbosa Lemos, morador da Rua Marechal Floriano com Rua Cesário Alvim, é a origem de parte das informações apresentadas. Inclusive, confirmou o rigor de sua tia Profª. Olga com os estudos e as notas. Certa vez, no Dom Lustosa, o aluno Lúcio acertou todas as respostas da prova de História, porém sua nota foi 9. Porque, escreveu uma palavra de maneira errônea. Isso é o pouco da eterna professora Olga Barbosa. Uma das estrelas no céu de Patrocínio.
 
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